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O que Gil do Vigor tem para nos ensinar

Ex-BBB Gil do Vigor quer chefiar o BC; instituição se diz “alegre” |  Poder360

De O GLOBO

Por CARLOS GÓES

Apesar de não ter assistido o Big Brother Brasil, venho acompanhando as declarações daquele que é hoje o economista mais famoso do Brasil: Gil do Vigor. Em suas entrevistas, Gil transparece ser consciente de dois fatos: a educação é elemento essencial para o progresso material de indivíduos e sociedades; e chegar na universidade é muito mais difícil para alguém que, como ele, cresceu sendo preto e pobre na periferia de uma cidade do Nordeste.

O Brasil é um país de massificação educacional tardia. Em 1930, enquanto 96% da população americana já era alfabetizada, somente 39% da brasileira o era. A educação fundamental só foi de fato universalizada no Brasil a partir do fim da década de 1980, com uma forte expansão de matrículas durante os anos 1990.

Hoje, segundo dados do IBGE, cerca de 95% dos jovens de 16 anos já concluíram o Ensino Fundamental ou ainda estão na escola. Mas permanece um gargalo no Ensino Médio: dentre os jovens de 19 anos, mais de 25% não concluíram e já não frequentam a escola.

Como quase tudo no Brasil, esta defasagem é desigualmente distribuída: aqueles que vêm de famílias pobres têm menor probabilidade de concluir o Ensino Médio.

Mas, afinal, por que isso importa?

Assim como o investimento em um maquinário novo pode aumentar a produtividade dos trabalhadores, o investimento em educação também pode fazê-lo. Por isso, economistas chamam investimentos em educação de investimentos em capital humano.

É algo intuitivo: pare e pense o quão difícil seria realizar sua atividade profissional se você não tivesse sido treinado em conhecimentos específicos para ela. Por ter sido treinado, você é mais eficiente.

Trabalhadores mais produtivos tendem a ter remuneração maior. Por isso, na média, à medida que um indivíduo acumula anos de estudo, seu salário no mercado sobe. Em economês, chamamos isso de retornos à educação.

Há alguns anos, Wladimir Teixeira e Naércio Menezes estimaram que, no Brasil, cada ano adicional de estudo leva ao aumento médio de 6% no salário dos indivíduos. Portanto, a educação importa muito no nível individual, pois a acumulação de capital humano pode ser um caminho para aumento da renda e para a mobilidade social daqueles que nasceram em lares mais pobres.

Mas ela também ajuda a explicar por que alguns países são prósperos e outros não. Afinal, em países onde há muitas pessoas com grande estoque de capital humano, a renda média tende a ser maior.

Num importante estudo, os economistas Lutz Hendricks e Todd Schoellman estimaram que 60% das diferenças de renda per capita entre países podem ser explicadas por diferenças no nível de capital humano acumulado pelos trabalhadores dos diferentes países.

Usando uma metodologia similar, os professores Luiz Mário Brotherhood, Pedro Cavalcanti e Cezar Santos demonstram que essa relação também ajuda a explicar variações de renda dentro do Brasil. Eles estimam que ao menos 25% da diferença de renda entre estados brasileiros se explica por discrepâncias em capital humano.

Gil é um caso muito extraordinário. Chegar num doutorado numa universidade de ponta nos Estados Unidos é, como ele mesmo diz, quase um milagre. Boa parte dos jovens que vem de onde ele vem sequer termina o Ensino Médio e talvez nem saibam que outros caminhos são possíveis.

O economista Raj Chetty e seus coautores demonstraram que, nos Estados Unidos, crianças expostas a vizinhos inventores têm maior probabilidade de se tornarem inventoras quando adultas, tudo o mais constante. O exemplo e a representatividade importam. Lá, como cá, muitos, sem ter alguém que se pareça consigo como exemplo, não se atrevem a sonhar.

É difícil quantificar o número de jovens que sequer tentam trilhar o caminho de Gilberto, seja por falta de opção, por falta de exemplo ou por considerar este um sonho inexequível por tão distante.

Mas, por todos os motivos listados acima, parece claro que o fato de perdermos tantos jovens pelo caminho é ruim não somente em termos de desigualdade social, mas também para eficiência econômica.

O que Gil do Vigor nos recorda é que o vigor do acesso universal à educação é um elemento necessário para superar o fosso da desigualdade social e forjar uma sociedade mais próspera. Somos todos mais pobres por termos poucos Gilbertos.

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