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Ao denunciar racismo, flamenguista criou a nova lei de Gerson

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Jogador dá exemplo ao acusar agressão; já Mano Menezes repete bobagem de Jorge Jesus

Nome, futebol e atitude de craque. Um novo Gerson, negro, tomou conta do futebol no Brasil.

Um dia mestre Armando Nogueira escreveu que Ademir da Guia tinha nome, sobrenome e futebol de craque.

Referências a Ademir de Menezes, excepcional atacante revelado pelo Sport, ídolo do Vasco e da seleção brasileira e a Domingos da Guia, pai dele e extraordinário zagueiro da seleção, revelado pelo Bangu e que brilhou no Vasco, no Nacional uruguaio, Boca Juniors, Flamengo e Corinthians. Além, é claro, referência à elegância de um dos melhores meias da história do futebol brasileiro, também revelado pelo Bangu e símbolo da Academia do Palmeiras.

O rubro-negro Gerson faz por merecer a adaptação sugerida pelo jornalista Marcos Augusto Gonçalves, o MAG.

Porque é xará de Gérson, Canhotinha de Ouro, cérebro do tricampeonato em 1970, de fulgurante carreira no Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense.

Jogadores homônimos houve outros, mas capazes de lançamentos de 40 metros e de comandar um time como o meio-campista da Gávea, só ele.

O velho Gérson ficou por muito tempo injustamente marcado pela frase infeliz de uma campanha publicitária de marca de cigarro em que ele dizia: “Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, certo?”.

Virou “a lei de Gérson”, fumante inveterado a ponto de fumar no intervalo dos jogos, cuja única vantagem que levou em sua vida de jogador deveu-se ao talento com a bola nos pés.

Pois eis que o novo Gerson teve o comportamento a ser seguido por todas as vítimas do preconceito racial.

Botou a boca no mundo, expôs a indignação com altivez e, de cabeça erguida, deixou mal, em péssima situação, não apenas o agressor Índio Ramírez, o atleta sem noção do Bahia, mas, também, o treinador Mano Menezes, capaz de repetir a bobagem de Jorge Jesus.

Se o ex-técnico do Flamengo disse que denúncias antirracistas haviam “virado moda”, o agora, felizmente, ex-comandante do Bahia, perguntou a Gerson se “virou malandragem?”.

Desnecessário frisar que Ramírez, Jesus e Menezes são brancos.

Um colombiano, um lusitano e um brasileiro.

Três patéticas provas do racismo estrutural manifestado cada vez com menos cerimônia na era de intolerância vivida pelo mundo afora, como se disposta a demonstrar ser a humanidade um projeto que não deu certo.

Ainda há os passadores de pano, os que naturalizam ofensas indesculpáveis como se pertencessem ao calor dos jogos, insensíveis à dor do ofendido, certamente por nunca terem passado por nada parecido.

Imagine a cor, imagine a dor.

No mundo jurídico é conhecido o episódio do engraxate portador de deficiência que diariamente era chamado de aleijado por um cidadão que passava por sua banca: “Bom dia, aleijado”, dizia.

Até que um dia ele não suportou mais e esfaqueou o desgraçado.

Submetido a júri popular, o defensor público designado para o caso limitou-se a cumprimentar respeitosamente o juiz e os jurados: “Bom dia, excelentíssimo senhor juiz, bom dia, excelentíssimos jurados”. Entre pequenas pausas, repetiu o cumprimento por três vezes. Quando ia fazê-lo pela quarta vez, o juiz, irritado, pediu que ele iniciasse a defesa.

“Excelência, por um minuto, se tanto, os saudei com educação. Imagine como se sentia o réu, todos os dias chamado de aleijado”. E mais não disse.

O engraxate foi absolvido por unanimidade.

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