Brinde amargo

Por PATRICIA FAVALLE*
Hoje conheci o Pedro. Ele aproximou-se da mesa do bar para oferecer chocolates, balas e chicletes. Perguntei quantos anos tinha. “11”, respondeu.
Olhei bem pra ele – um garoto bem arrumado; camisa polo azul-clara, jeans e tênis. Cabelo curto, falante… E ele mesmo disparou: “Preciso trabalhar”.
Questionei o que ele sabia sobre trabalho infantil. “Só sei que o mundo não é cor-de-rosa”. Quis saber mais. E onde vc mora? “Em Pirituba.” Bom, ele estava longe de casa… “Mas é sábado, já está tarde. Com quem vc está?” “Com o meu irmão. Cada um faz um trecho aqui no centro.” Vc estuda? “É o que mais faço. Quero ser jornalista, mas não um jornalista qualquer. Quero ser desses que viajam pelo mundo”, falou com um sorriso no rosto.
Estendi a mão para lhe cumprimentar: “tenho certeza que te encontrarei no futuro como colega de profissão”. Ele retribuiu com os olhos encantados – quase como um agradecimento gentil e humano. A mim restou a culpa e a reflexão de que os sonhos devem ser sempre tingidos de cor e de esperança.
Nenhuma criança deveria passar por tantas provações. E o meu brinde ficou amargo.
*Patricia Favalle é jornalista das mais competentes
