Carnaval e Jogo do Bicho: os porões da contravenção

Por CHICO OTAVIO E ALOY JUPIARA*
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Uma pequena revolução aconteceu no fim do ano numa cela de 12 metros quadrados em Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó. Por mais que se queira esquecer 2015, foi neste cubículo, na companhia de outros cinco presos, que o poderoso André Esteves, ex-sócio do Pactual, amargou uma temporada atrás das graves, sob a acusação de pressionar testemunhas no escândalo da Lava Jato. Confinar Esteves, servindo-lhe arroz, feijão e salsicha e obrigando-o a partilhar um vaso sanitário com os parceiros de cela, seria há tempos atrás algo impensável para o país da impunidade. Todavia, aconteceu. O banqueiro, como se diz na giria das penitenciárias, conheceu a tranca.
Os Porões da Contravenção. Foto: DivulgaçãoMas o temor de outro ano difícil, já que muitos problemas iniciados no ano passado foram empurrados para 2016, ficará nas próximas semanas em segundo plano para a população carioca. Afinal, está chegando o carnaval. Mais uma vez, as arquibancadas na Passarela do Samba se encherão para aplaudir o espetáculo do Grupo Especial. E, mais uma vez, na carona da comunidade das escolas de samba, os bicheiros desfilarão o seu cinismo pela avenida. Os ecos da pequena revolução de Bangu 8 não reverberaram na Sapucai. O Brasil ainda não conseguiu criar uma tranca capaz de encarcerar um dos mais longevos casos de impunidade do país: a força da contravenção.
Com a prisão dos bicheiros, nos anos 90, por formação de quadrilha, quando julgados pela juíza Denise Frossard, e as condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, no início desta década, na chamada Operação Furacão, a opinião pública abriu os olhos para os crimes cometidos pelo jogo do bicho, a violência que é a sua marca. Mas foi pouco. No carnaval, ainda vemos bicheiros sendo aclamados como se fosse impossível vislumbrar um desfile sem eles.
Há mais de três décadas é assim. Entre os anos 1970 e 1980, os bicheiros entenderam que o caminho mais curto para se legitimar junto ao poder público era o carnaval, posando de mecenas, protetores dos sambistas. Essa ideia é errada porque a contravenção é movida por interesses de negócios. O desembarque da contravenção nas quadras das escolas não foi um movimento para afirmação e independência dos sambistas, mas uma estratégia de gente como Castor de Andrade, Anísio, Luizinho Drumond e Capitão Guimarães para conquista de novos espaços de poder e domínio de territórios de jogo.
Afirmou-se, na época da fundação da Liesa, que a ideia era defender as escolas e os sambistas. Mas o que aconteceu foi que os sambistas tradicionais perderam espaço na administração das escolas. Não participavam mais da tomada de decisões de gestão das suas agremiações e, menos ainda, dos recursos públicos recebidos para os preparativos dos desfiles. Tudo se concentrou nas mãos dos banqueiros do bicho. De protagonistas no dia a dia das escolas, sambistas passaram a ser tratados como figurantes pelos patronos e seus gerentes. Filhos e netos de fundadores de agremiações, ou mesmo sambistas das novas gerações atraídos para as quadras pela arte do samba, não puderam mais ter sua voz ouvida nas decisões (o jogo do bicho é uma estrutura rigidamente hierárquica e nada democrática, sem espaço para contestações ou oposição). A contravenção não tem nenhum interesse em restituir poder aos sambistas porque o que está em jogo é um grande negócio e sua influência política, dos quais os bicheiros não abrem mão.
A Liga foi criada com o objetivo claro de privatizar o carnaval carioca. Foram parar nas mãos dos bicheiros a “gestão” da maior parte dos recursos oriundos da venda de ingressos, dos direitos de transmissão de imagem, da exploração de publicidade no Sambódromo, esvaziando o poder público e enfraquecendo as pequenas agremiações. Com o dinheiro entrando sem filtros na entidade, tocariam o negócio do samba como o do bicho. Poucos decidiriam sobre o destino da festa e o uso dos recursos. Chamaram a isso de profissionalização dos desfiles. Mas o nome poderia ser negócios entre amigos. Empresas ligadas aos capos, como fabricantes de material para fantasias e alegorias, passaram a representar um mercado lucrativo, muitas vezes dividido entre parentes e parceiros.
Para sobreviver o jogo do bicho busca todo o tempo corromper policiais, servidores públicos, políticos, integrantes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, numa teia de influências para preservar seus negócios. No passado, bicheiros se aliaram a agentes da repressão do regime militar. Quando o fim do regime estava próximo, com o povo nas ruas clamando por democracia, setores do poder dedicaram-se ao butim.
Perderam o pudor. Enquanto os filhos do presidente desfilam na escola de samba dominada pelo bicheiro de Nilópolis e o Exército comprava panelas e marmitas de uma metalúrgica de Castor, surgiram alguns escândalos não muito diferentes do que se vê hoje. Um deles, relatado no livro “Os porões da contravenção. Jogo do bicho e ditadura militar – A história da aliança que profissionalizou o crime organizado”, descreve como o SNI salvou a empresa de Castor, a que fabricava as panelas para o Exército. Vencida a esquerda armada, a luta ideologia parecia ter cedido espaço para a ambição pura e simples de poder.
A história não acabou. Os bicheiros estão aí e não mudaram suas práticas de corrupção. Condenados em processos da Operação Furacão, aguardam em liberdade o julgamento dos recursos em tribunais superiores. E seguem mandando e desmandando no desfile das grandes escolas, decidindo o que vai ser e o que não vai ser, gerindo recursos públicos e atraindo recursos privados. Quanto tempo mais fecharemos os olhos a essa relação promíscua?
*CHICO OTAVIO E ALOY JUPIARA são autores do livro “Os porões da contravenção – Jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado” (editora Record).
