Catástrofe obscura

EDITORIAL DA FOLHA
Em 20 de abril de 2010, a plataforma Deepwater Horizon explodiu, matou 11 pessoas, derramou 780 milhões de litros de óleo no golfo do México por quase três meses e causou prejuízo de mais de US$ 50 bilhões à empresa BP.
A resposta coordenada pelo governo norte-americano ao maior desastre ambiental dos EUA chegou a mobilizar 48 mil pessoas. Nem por isso o presidente Barack Obama escapou de críticas, em especial por ter minimizado, de início, o porte do derramamento.
No caso do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana (MG), em 5 de novembro, não pairou dúvida sobre a maior catástrofe ambiental brasileira: 40 bilhões de litros de lama invadiram de uma vez a bacia do rio Doce e houve ao menos 13 mortes.
As críticas a Dilma Rousseff (PT) se concentraram na lentidão do governo em reagir, ilustrada pela demora da presidente em deslocar-se ao local, uma semana depois. Um mês após o desastre, o país ainda está longe de vislumbrar uma orientação do Planalto que se mostre à altura do derramamento.
Verdade que o Ibama autuou a Samarco em R$ 250 milhões. O Ministério do Meio Ambiente pretende levar adiante ação civil pública contra a empresa, ao lado de Minas Gerais e Espírito Santo, para que destine R$ 20 bilhões a um fundo de recuperação, de gestão privada.
Não é improvável que a Samarco e suas proprietárias –Vale e BHP– tentem se esquivar desse comprometimento financeiro. Com a lentidão da Justiça brasileira, o processo pode arrastar-se pelos dez ou 15 anos que a recuperação propriamente dita do rio Doce pode durar.
É no front da informação, porém, que os governos mineiro e federal já vão perdendo a guerra. Tome-se a suposta contaminação da lama de Mariana com metais pesados danosos à saúde, sobre a qual ainda paira um véu de opacidade.
Brasília deu destaque para um laudo do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e da Agência Nacional de Águas (ANA), que indicava não ter ocorrido aumento dessas substâncias tóxicas no rio Doce. Na mesma época veio a público análise do Instituto Mineiro de Gestão das Águas de Minas (Igam), atestando quantidades superiores ao recomendável de arsênio, cádmio, chumbo e até mercúrio.
Trata-se de uma questão básica, que cabe ao poder público dirimir de vez. Permitir que a dúvida persista só vai agravar a angústia da população e turvar a perspectiva de que a recuperação da área se faça com eficiência e seriedade.
