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Governo queria asilo a Berezovski, diz procurador

Domingo, 9 de setembro de 2007, 17h36
Bob Fernandes

Redação Terra

Terra Magazine falou há instantes com o procurador José Reinaldo Guimarães Carneiro. Em abril de 2005, ele e colegas do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado, espécie de tropa de elite do Ministério Público) elaboraram um relatório que concluía pela certeza da presença do criminoso russo Boris Berezovski no comando da parceria Corinthians/MSI – o que sempre foi oficialmente negado pelos dirigentes do clube.

Agora, o procurador avança e diz, de maneira contundente, que o governo brasileiro se preparava para conceder asilo a Berezovski, apesar de a Abin, órgão de assessoramento da Presidência, ter informações sobre as conexões criminosas do russo pelo menos desde 2005.

– A Abin é vinculada à Presidência e é impossível alguém do governo dizer agora que não sabia quem era Boris Berezovski. Todo mundo sabia.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

O senhor e o Ministério Público Estadual de São Paulo investigaram a MSI já há anos…

Desde o início, quando os dirigentes do Corinthians diziam que Boris Berezovski nada tinha a ver com a parceria e com a MSI, e que eles desconheciam isso. O Gaeco os desmascarou. Numa investigação de três meses, mostramos que o senhor Boris Berezovski era parte principal da parceria.

Quando isso?

Em abril de 2005 concluímos o nosso trabalho, que foi mandado para o Ministério Público Federal, e que deu nisso tudo agora. Comprovamos, então, fortes indícios.

Quais eram esses indícios?


Primeiro mostramos que as offshore ligavam Boris Berezovski com a MSI e o Corinthians, assim como ao Badri Patarkatsishvili. Para tanto contamos, inclusive, com um erro deles.

Que erro foi esse?


Um dinheiro que chegou ao Brasil, para o Corinthians, vindo de Tbilisi, capital da Georgia, em nome de Zaza Toidze. Eles cometeram esse erro. Uma prova cabal da ligação entre Boris, Badri, MSI e a parceria com o Corinthians.

E qual o outro forte indício?

A viagem à Europa do presidente do Corinthians, Alberto Dualib, sua neta Carla e os vice-presidentes Nesi Curi e Andrés Sanches – hoje na oposição. Eles foram lá para fechar a parceria, ainda que neguem.

O evento social foi uma pista?


Claro, veja o roteiro. Foram recebidos, em Londres, na residência de Boris Berezovski, e depois voaram, num jato providenciado pelo próprio Berezovski, para Tblisi, na Geórgia. Lá, foram recebidos pelo próprio Badri. Todas as relações mostravam e mostram que a MSI era gerenciada por um fundo internacional comandado por um mafioso russo, Boris Berezovski, procurado e já condenado na Rússia por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, entre outros crimes.

Isso tudo foi dito no relatório do Gaeco há mais de dois anos?


Há mais de dois anos eles todos estavam desmascarados. De lá para cá o Ministério Público Federal e a Polícia Federal investigaram, e nós do Gaeco tentávamos impedir que o Boris entrasse no Brasil com status de asilado.

Como era esse trabalho?

A cada notícia de que ele viria para o Brasil nós íamos atrás. Havia um óbvio trabalho para que ele conseguisse o asilo.
E quase conseguiu

Com quem ele quase conseguiu?

Essa concessão seria dada pelo governo brasileiro. Neste instante não me recordo bem se foi através do Ministéro da Justiça, do Ministério das Relações Exteriores ou de outra autoridade, mas o governo chegou a se manifestar a respeito.

Como, quando e para quem?

No ano passado, eu mesmo, nós do Gaeco, recebemos uma comunicação dessa autoridade, de que agora não me recordo – mas tenho o documento -, informando que o Boris seria beneficiário de um tratado entre vários países e que levaria o Brasil a aceitar seu status de asilado por ser signatário desse mesmo tratado. Eu é quem fiz o ofício para o governo porque me preocupavam as manobras que percebia para a concessão do asilo a Berezovski. O governo me respondeu dizendo que havia um diploma legal que autorizaria o governo a conceder asilo ao russo.


Qual foi a reação de vocês?

Nesse momento, a indignação foi tão grande que produzimos um texto que rodou a internet. Eu assinei, o delegado Romeu Tuma Jr. também, e que se chamava “E se fosse Osama?” (leia aqui). Boris está ao aldo do Bin Laden na difusão vermelha da Interpol, ou seja, os criminossos mais difíceis de serem capturados.

Ora, só por que o Brasil assinou um tratado, qualquer criminoso pode entrar e permanecer aqui?

Bem, as suas palavras dirigem perguntas e até mesmo conclusões para bem além do Corinthians… Não há como ninguém alegar que desconhecia quem eram esses senhores a partir do nosso relatório de 2005, inclusive por uma razão muito simples, contundente e perigosa.

Que razão seria essa?


O nosso trabalho em 2005 começa exatamente com informações que recebemos da Abin (Agência Brasileira de Inteligência, um órgão de assessoria da Presidência da República). Interagimos com a Abin e isso foi fundamental no início da investigação. Não se sabia então que Boris Berezvski queria investir no Brasil.

Que outras providências os senhores tomaram?

No começo deste 2007, enviei um ofício para o próprio diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, informando que havia uma movimentação de autoridades brasileiras, sem dizer quais eram, que arquitetavam o asilo para o Boris no Brasil. Mandei para ele inclusive perguntando se não havia crime de favorecimento pessoal. Ou seja, alguém intervia para proteger um criminoso. E eu sei que Paulo Lacerda determinou que a Polícia Federal investigasse, tanto que chegamos onde chegamos, inclusive neste aspecto. O fato concreto é que só estou tomando inteireza e conhecimento desse relatório agora, por intermédio de vocês.

Terra Magazine

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