Golpe militar na Argentina completa 50 anos sob revisionismo do governo Milei

Do ESTADÃO

Por FILIPE FIGUEIREDO

Com pouco mais de dois anos de mandato, a relativização dos crimes contra a humanidade, do desastre econômico e da responsabilidade de agência dos militares ganha cada vez mais amplitude

Essa semana marca os cinquenta anos do mais recente golpe militar na História argentina, quando, em 24 de março de 1976, as forças armadas do país depuseram a presidente Isabel Perón. “Isabelita”, como é conhecida, havia assumido o cargo dois anos antes, como vice-presidente após a morte do presidente, e seu marido, Juan Perón. Os quase oito anos seguintes ao golpe foram um desastre para a Argentina. Meio século depois, entretanto, essa memória é desafiada pela primeira vez, com a chegada ao poder de apologistas do golpe.

A ditadura deixou entre treze e trinta mil mortos. Outras milhares de pessoas foram torturadas na chamada “Guerra sucia”. Cerca de quinhentos bebês foram roubados e traficados pelos militares, tirados de suas mães acusadas de qualquer crime político de conveniência nas masmorras do regime. Além do retrocesso em Direitos Humanos e das brutalidades, a ditadura também retrocedeu o país em outros campos.

A ditadura gastou grande proporção do tesouro nacional em armamentos, ameaçando o Chile de invasão em 1978 e, finalmente, invadindo as ilhas Malvinas, chamadas de Falklands por seus habitantes e pelo governo britânico, em 1982. Pelo menos 649 argentinos perderam a vida na empreitada que resultou em derrota humilhante, milhares ficaram feridos ou sofreram de sequelas psicológicas e sociais. Parcela razoável dos custosos equipamentos acumulados nos anos anteriores foram destruídos, perdidos ou inutilizados à toa.

Tudo isso pela posse das ilhas que o governo britânico estava negociando. Os militares, entretanto, precisavam da “glória” da conquista, que malogrou. A ditadura argentina, tal como a brasileira, legou à sua nação uma economia com a dívida externa multiplicada em seis e hiperinflação. A pobreza aumentou e os índices escolares e acadêmicos, em que a Argentina se destacava, também caíram. Parte considerável dos professores, cientistas e acadêmicos foi perseguida, teve que sair do país ou ser morta.

Tudo isso em nome de um suposto combate ao comunismo, termo que oculta do que se trata na realidade: paranoia social, disputas políticas internas e alinhamento subalterno no mundo bipolar da Guerra FriaOutros fenômenos similares ao Brasil, novamente, onde, infelizmente, cerca de mil professores foram passar o auge de suas carreiras em instituições no exterior, além dos que foram torturados ou mortos. Diferente do Brasil, entretanto, o legado maldito da ditadura militar argentina é quase unanimidade no país vizinho.

Militares que cometeram crimes contra a humanidade foram julgados, com as garantias e procedimentos legais que não concederam, e condenados. Centros de memória foram fundados, estabeleceu-se que os crimes de agentes do Estado não pode ser equiparado ao de criminosos comuns e soube-se separar a imagem dos veteranos de guerra que serviram ao seu país, muitos deles conscritos, da junta militar que trouxe a humilhação, a derrota e o desastre econômico ao país.

futebol argentino, que foi tanto vítima quanto instrumento dos militares, faz do dia 24 de março um dia de memória de forma uníssona, com manifestações por todos os clubes argentinos, onde a identidade do clube ou do bairro da pessoa é quase tão importante quanto sua identidade nacional. Esse processo de memória, entretanto, começou a sofrer erosão institucional no atual governo. Nem tanto pelo presidente Javier Milei, que, claro, endossa a ideia de que a ditadura foi responsável pelo combate ao comunismo.

Essa erosão vem principalmente da vice-presidente Victoria Villarruel, filha e neta de militares e que fez do revisionismo barato da ditadura militar argentina a sua plataforma política, buscando eleitores para chamar de seus. Quando do afundamento acidental do submarino San Juan, em novembro de 2017, suas aparições públicas em “defesa” dos familiares dos mortos na tragédia eram constrangedoras de tão oportunistas. Em 2021, ela foi eleita deputada e, dois anos depois, tornou-se vice-presidente.

O cálculo de Milei foi acenar para a direita conservadora e nacionalista argentina. Pouco mais de dois anos de mandato depois, a relativização dos crimes contra a humanidade, do desastre econômico e da responsabilidade de agência dos militares ganha cada vez mais amplitude. O centro de memória da Escola de Mecânica da Armada, a Esma, que serviu de centro de tortura, já foi totalmente desfigurado. Felizmente, entretanto, tais mudanças não foram recebidas de forma passiva, como se viu nas demonstrações dos clubes argentinos.

Talvez o efeito mais nocivo do legado das ditaduras militares e da postura oportunista de atores políticos como Villarruel na Argentina e de políticos brasileiros, seja a intensificação da imagem de partidarismo das forças armadas latino-americanas. Forças armadas preparadas, integradas à sociedade e à governança democrática são essenciais para um Estado neste início de século XXI. Relativizar os fracassos e as violações sistemáticas de Direitos Humanos por agentes do Estado apenas mantém uma visão atrasada sobre essas forças.

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