Cela como escritório

Do ESTADÃO
EDITORIAL
Inteligência da Polícia Civil desenhou o novo organograma do PCC e revelou que 14 dos 15 principais líderes do bando ditam as regras de dentro de presídios, num sinal de fracasso do Estado
O Departamento de Inteligência Policial (Dipol), da Polícia Civil de São Paulo, desenhou o novo organograma do Primeiro Comando da Capital (PCC). A facção criminosa, como mostrou recente reportagem do Estadão, está estruturada em 12 “sintonias”: são uma espécie de diretorias responsáveis por um ramo, ou uma determinada “missão”, no linguajar da bandidagem. Não é de hoje que as autoridades públicas têm conhecimento de que o PCC se organiza de forma vertical, hierarquizada e autoritária. Mas ainda causa espanto o fato de que as ordens transmitidas a toda essa cadeia de comando partam de dentro de presídios.
As sintonias do PCC, no dia a dia, cuidam da administração do crime e da gestão de pessoas – ou melhor, de bandidos –, no Brasil e no mundo. Essas estruturas são comandadas hoje por 15 detentos da alta cúpula da facção, que ocupam, digamos assim, o posto de diretor. Nada menos do que 14 deles estão presos, e um está foragido. E Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola – que, vale lembrar, está preso numa unidade do sistema prisional federal e, em tese, incomunicável –, ainda figura como o líder máximo do PCC.
E esses líderes ainda contam com auxiliares diretos. São cerca de 100 “gerentes”, dos quais 61 também são detentos. Isso significa que, de dentro de uma cela – muito provavelmente de segurança máxima –, esses criminosos traçam as diretrizes de gestão de negócios ilícitos e lícitos do PCC, que movimentam, conforme estimativas do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), nada menos do que US$ 2 bilhões, ou R$ 10 bilhões, por ano em ao menos 28 países das Américas, da Europa e até da Ásia.
Para manter a disciplina numa organização criminosa que já ganha contornos de máfia, os líderes do PCC dividiram os interesses do bando nas “sintonias”, como a do Sistema, que cuida dos assuntos internos das prisões; a do Progresso, que gerencia o tráfico de drogas nas ruas, sobretudo de São Paulo; a da Padaria, que responde pelas finanças do grupo; e a dos Gravatas, que é formada por advogados a serviço dos criminosos e, não raro, a serviço do crime. E agora há uma novidade: o Dipol descobriu a existência da Sintonia da Internet e das Redes Sociais.
Trata-se de uma estrutura criada pelo PCC para afinar a comunicação online entre os faccionados por meio de aplicativos de mensagens, redes sociais e e-mails criptografados. Segundo o relatório do Dipol, a missão da sintonia é garantir “segurança e discrição”, além de oferecer “suporte digital e de informação”, evitando qualquer risco de exposição da facção. E, com tantos líderes do PCC presos, cabe à Sintonia da Internet e das Redes Sociais assegurar a coesão da organização criminosa. De acordo com os investigadores, essa é a sintonia responsável por difundir o ideário do bando paulista, “mantendo a unidade ideológica e simbólica da facção, mesmo entre integrantes distantes”.
Os líderes do PCC também se preocupam com o controle sobre seus integrantes, nos presídios e nas ruas. Prova disso é que os investigadores do Dipol trouxeram a público o funcionamento do Setor do Raio X, que, embora esteja vinculado à alta cúpula da facção, não pode ser chamado de uma sintonia. Com atribuições específicas, ocupa-se de fiscalizar e auditar as contas de cada uma das áreas da facção. Esse departamento foi criado, segundo o relatório do Dipol, para “inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização” – ou seja, é uma corregedoria do crime.
Todas essas revelações não são nada triviais. Ao atualizar o organograma do PCC, a ideia da Polícia Civil de São Paulo é enfraquecer a facção criminosa, expor seus principais e mais perigosos líderes e abrir caminhos para a implementação de estratégias que possam asfixiá-la financeiramente, tanto no Estado como no exterior. O eficiente trabalho de inteligência do Dipol mostra que é constrangedor para o poder público o fato de o sistema prisional funcionar como a sede do crime, de onde o PCC emite suas ordens às filiais, numa demonstração de audácia do crime organizado e de fracasso do Estado em combatê-lo.
