Pensamento do Presidente do Flamengo reflete o da classe média ignorante

Em recente entrevista, o presidente do Flamengo, conhecido pela sigla BAP, expôs a estupidez e a ignorância que norteiam seu raciocínio:

“O Flamengo está no Brasil hoje por acaso. Porque o Flamengo é uma ilha no Brasil. Nosso sucesso não se deve ao fato de o Flamengo ser maior. Deve-se ao fato de o Flamengo ser melhor administrado, melhor gerido.

Sempre sonhei grande. Sempre pensei em ser o Real Madrid das Américas. Observo o que o Real Madrid faz, o que o City faz, o que o Atlético de Madrid faz, o que o Bayern de Munique faz, o que o PSG faz. Tento entender quais foram seus sucessos para trabalhar adequadamente no que posso adaptar à realidade do Brasil e identificar os erros que posso evitar repetir. Penso no Flamengo como se fosse um clube europeu no Brasil. Em cada decisão que tomo, penso: ‘Se o Flamengo estivesse na Europa, que decisão eu tomaria?’.”

A visão do país — e o desejo de se imaginar, em sua própria cabeça, como uma espécie de “colonizador” — são típicos de uma classe média inculta que tanto prejudica o desenvolvimento social do país.

Ao afirmar que o clube “está no Brasil por acaso”, o dirigente parece ignorar que sua grandeza foi construída exatamente a partir das contradições, da cultura popular e da paixão do povo brasileiro.

O Flamengo não é uma “ilha”; é produto direto da realidade social que o cerca — com suas virtudes e seus problemas.

Desprezar esse contexto equivale a renegar a própria base que sustenta o sucesso que ele tenta reivindicar.

Mais grave é a obsessão pela comparação com modelos europeus, como se excelência administrativa fosse sinônimo de importação de práticas desconectadas da realidade local.

Admirar o que fazem clubes como Real Madrid ou Manchester City é legítimo; porém, transplantar mentalmente o clube para a Europa como exercício constante de decisão revela um certo complexo de inferioridade travestido de ambição.

Não se constrói grandeza negando a própria identidade — constrói-se compreendendo-a e aprimorando-a.

O Brasil não é um obstáculo a ser superado, nem um estágio provisório rumo a um ideal estrangeiro.

Quando um dirigente sugere que o êxito ocorre “apesar” do país, acaba por reforçar uma narrativa elitista que desconsidera o papel estrutural do ambiente social, econômico e cultural brasileiro na formação das instituições esportivas.

O verdadeiro salto civilizatório não está em sonhar ser europeu; está em provar que é possível atingir padrões elevados de gestão sem renegar as próprias raízes.

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1 Comentário

  1. O Flamengo é um produto “criado” pela Globo, bancado pelas Estatais e mantido pela CBF

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