Tá com pena? Leva pra casa!

Da FOLHA

Por TATI BERNARDI

  • Pensei aqui alguns nomes de criminosos bem bacanas para o leitor patriota levar pra casa
  • A reação de se chocar com a chacina é algo que acontece com alguns e não acontece com outros

Esses dias cometi um ato bem previsível quando se trata de analisar o comportamento básico de um ser da categoria humana: me choquei com uma chacina. Não precisou muita coisa. Para tal não usei nem um milésimo do caráter e da cognição que ainda me restam. Basta ter um cérebro que opera em condições não agudamente psicopáticas e a ele somar alguma coisa que, para simplificar, podemos chamar de alma. Eu olhei pra tela da televisão e foi instantâneo o meu pensamento: meu Deus do céu, que coisa terrível!

Interessante pensar que tive a mesmíssima reação, quiçá a mesma verbalização precária e advinda de um ginásio com ensino religioso, que tiveram meus colegas que estudaram uns 674 mil livros a mais do que eu. Mas acho que o que me conectou neste caso a respeitados professores, doutores e cientistas é uma coisa que vai além do tempo dedicado para abrilhantar a mente e a fala. Se trata de algo que acontece com alguns e não acontece com outros. Vou chamar de decência, mas fica aí exposta a minha curiosidade para um nome mais preciso.

Ao comentar minha indignação ao ver mais de 60 corpos enfileirados (lembrando que existem pelo menos mais 60 outros corpos além desses) em uma comunidade do Rio de Janeiro, com mães desesperadas sobre os filhos mortos, eu recebi uma enxurrada de comentários que diziam assim: “Tá com pena, leva pra casa”!

Um tio da minha mãe, que defendia a ditadura, batia na mulher e chamava preto de “essa gente”, já falecido com a graça de Deus há pelo menos três décadas, já dizia isso: tá com pena, leva pra casa! A esquerda pelo menos evoluiu ao somar o adjetivo arrombado a um fascista.

Os grandes jornais do país contam com excelentes cientistas políticos e professores de direitos humanos e esses senhores estão empenhados em explicar com elegância e paciência a leitores que flertam com pensamentos de extrema direita (arrombados fascistas) os motivos pelos quais eles estão agindo como energúmenos torpes e sem dignidade. Nota de rodapé: os colunistas que em vez de chamar de chacina criminosa estão chamando somente de megaoperação do governador Cláudio Castro vão dizer que têm pacto com a pluralidade, mas sabemos que o seu pacto é com o diabo mesmo.

Mas como gosto de responder quando me fazem uma pergunta, por mais estúpida que seja, pensei aqui alguns nomes de criminosos bem bacanas para o leitor patriota levar pra casa: o assassino e ex-goleiro Bruno; a assassina e pastora Flordelis; o estuprador e ex-jogador Robinho e o ex-vereador, pedófilo e estuprador Thiago Bitencourt. Alguns dos torturadores de Rubens Paiva ainda estão vivos e se você correr pode levá-los pra casa e trocar suas fraldas.

Alfredo Stroessner, ditador paraguaio corrupto que enterrava torturados em sua casa de campo e era conhecido como o maior pedófilo da história (abusou de mais de 1600 crianças), foi homenageado por Bolsonaro algumas vezes. Certamente, se estivesse vivo, o caro leitor ultranacionalista adoraria levá-lo pra casa. Bolsonaro idem, mas não pode receber visitas.

Se você quiser pegar leve, considere levar a vloguer Antonia Fontenelle. Na pior das hipóteses, ela só vai explodir seu lavabo com gases de efeito wheyprotênico. No mais, estou com uma lista de cantores aqui que poderiam formar a banda The Goebbels e tocar em seu casamento, mas acabou meu dinheiro pra me livrar de processos.

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