Do caixa da Kalunga ao cofre do Corinthians: o poder oculto de Paulo Garcia

Com o clube endividado em mais de R$ 2,7 bilhões, o empresário usa influência e dinheiro para controlar o Timão, blindar aliados e pavimentar a transição da “SAF informal” para a oficial — sob o mesmo comando.
Sem coragem para ser candidato à presidência — porque a ausência de carisma supera, em larga margem, o saldo bancário — o empresário Paulo Garcia, dono da Kalunga e irmão do agente de jogadores Fernando Garcia, especializou-se em comprar cargos dentro do Corinthians.
Dessa forma, administra o clube sem o ônus do CPF nos documentos e a cobrança midiática direta.
E pouco importa qual facção ocupa a cadeira presidencial.
Em troca de blindar o presidente contra pedidos de impeachment, Garcia comandou diversos departamentos na gestão Roberto de Andrade, da Renovação e Transparência — entre eles o de futebol, por meio de Flávio Adauto.
O mesmo se repetiu, em escala menor, com Andrés Sanchez, a quem financiou 80% da campanha a deputado federal, e também com Duílio “do Bingo” Monteiro Alves e Augusto Melo.
Agora, retorna com força total na presidência do submisso Osmar Stabile.
Neste caso, porém, foi necessário escantear Romeu Tuma Júnior, que puxava as cordas do mandatário até o término do período interino.
Atualmente, Paulo Garcia comanda os departamentos de Finanças, Administrativo, Futebol de Base, Relações Institucionais, Tecnologia, Jurídico, Patrimônio e Obras, Marketing e também a Secretaria-Geral.
O Centrão corinthiano, presente em todas as diretorias desde 2007, mantém-se no poder com Armando Mendonça na vice-presidência e no comando informal do futebol profissional, além de alguns cargos remunerados de menor visibilidade, mas com salários generosos.
O conflito é questão de tempo.
Stabile manterá o futebol como está até o fim do ano, quando demitirá Fabinho Soldado e entregará o departamento a um nome indicado por Garcia — possivelmente Flávio Adauto, que só não assumirá se recusar o convite.
Nesse caso, outro aliado do empresário será nomeado.
Enquanto isso, Fran Papaiordanou, também ligado a Garcia, supervisiona tudo como presidente da Comissão de Futebol do Conselho Deliberativo.
Stabile assiste — e obedece.
O Corinthians segue refém do atraso, personificado em distribuidores de dinheiro suficientemente espertos para bancar os votantes que perpetuam o poder dessas mesmas figuras há quase duas décadas.
Não à toa, o acréscimo de mais de R$ 100 milhões à dívida — que agora ultrapassa R$ 2,7 bilhões — veio acompanhado da aprovação vergonhosa, e a preço de barganha, pelo venal Conselho alvinegro, do aumento de despesas autorizado por uma nova e extemporânea previsão orçamentária.
Fundo do poço?
Ainda não.
Há margem para piora — e vai piorar.
Coincidentemente, há alguns meses, o grupo que gasta uma fortuna para divulgar a SAFIEL — em que o principal executivo foi flagrado em relatório do CAOF doando dinheiro à campanha do marginal Augusto Melo — segue sendo apresentado em caros jantares a conselheiros do Corinthians pela conselheira Miriam Athiê, que há décadas mantém estreita ligação política com Paulo Garcia.
Fica a impressão de que o caos financeiro, influenciado pelo dono da Kalunga — que é o presidente de fato do Timão — não é acidente, mas método, para viabilizar a aprovação de um projeto vendido como “salvador da pátria” corinthiana.
Sair da SAF informal para a oficial, mantendo, porém, os interesses dos Garcia como prioridade.
Abaixo, destacamos trecho histórico de um discurso de Miriam Athiê, em defesa da união entre Paulo Garcia e Osmar Stabile, no qual a conselheira afirmou: “(…) se nós estivermos juntos, Paulo (Garcia), nós vamos conseguir tomar o Corinthians…” — frase premonitória do que parece estar acontecendo agora.

Só uma ação pública movida pelo promotor que pode pedir interferência judicial com nomeação de interventor judicial