Felipe Neto candidato a presidente? Por que a mídia caiu nessa?

Da FOLHA

Por FILIPE VILICIC

Sem querer, influenciador enganou jornalistas que noticiaram como fato o que não passava de paródia de ‘1984’; quem perdeu foi o próprio jornalismo

Quando comecei a assistir ao vídeo de Felipe Neto supostamente fazendo um anúncio de que seria pré-candidato à Presidência da República, me veio a imagem do Bussunda imitando o Lula há 20 anos. Conforme rolava o discurso, associei a “1984”, o clássico de George Orwell. Ao fim, recordei de Snoop Dogg há dois anos, quando o rapper dizia nas redes que iria parar de fumar maconha, enganando a mídia com o que se revelou ser uma ação de publicidade.

Além do tom digno das Organizações Tabajara, Felipe Neto praticamente falava em novilíngua, o idioma que Orwell inventou. Inclusive nomeou a rede social que afirmava que lançaria de “Nova Fala”, comparando-a ao Ministério da Verdade, o órgão fictício encarregado de mentir ao povo em “1984”, antes de encerrar dizendo que no dia seguinte iria revelar do que se tratava aquilo.

Por isso me surpreendi quando comecei a receber mensagens de colegas jornalistas alarmados e a ver em grupos de acadêmicos o espanto com o que, na minha percepção, se mostrava como brincadeira e/ou publicidade. Na mesma quinta-feira (3 de abril) da publicação do vídeo, sites noticiavam a candidatura. E não como piada.

Por que a mídia caiu no que se revelou ser uma jogada de marketing de uma big tech com o influenciador brasileiro?

Em minha pesquisa de mestrado, estudei ações de Felipe Neto, como exemplar do fenômeno dos influenciadores, para mapear como se espalham as narrativas pelas redes, mexendo com as nossas sensações, identidades e noções de cidadania, com impactos políticos, culturais e comunicacionais.

Na forma superficial que se consomem informações nas redes, levas intermináveis de conteúdos deixaram de passar pelas peneiras institucionais e a tarefa de interpretá-los foi transferida, a grosso modo, ao público. Soa como ironia que o principal caso que pesquisei do influenciador é o de quando, em 2022, ele fez uma série de vídeos para desmentir fake news no pico das eleições presidenciais.

Mas a suposta candidatura não era notícia falsa, era marketing. Boa parte da mídia, todavia, se rendeu à superficialidade das redes: sem apurar com fontes primárias; sem questionar atores políticos; sem esperar a resposta do influenciador. Desconfio que nem leram os comentários no post, nos quais já se apontavam indicações de que era uma pilhéria. Pode-se discutir se foi de mau gosto ou não, mas a real era que se evidenciava a jocosidade a quem assistisse até o fim ou pesquisasse um pouco.

Há três anos escrevi nesta Folha sobre como o jornalismo tem se rendido ao que circula nas redes, com efeitos desastrosos. A falha em interpretar o vídeo do influenciador mais uma vez prova como há repórteres que estão replicando o que veem no Instagram. E não adianta culpar o influenciador, visto que o que ele fez não foi mentir, mas publicar uma paródia que não deveria passar como verdade aos olhos de jornalistas.

O vacilo de ter dado como notícia a suposta candidatura de Felipe Neto é reflexo de como a mídia pode estar perigosamente deixando de lado algumas regras de ouro do jornalismo.

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