Receita de mulher engraçada

De O GLOBO

Por JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Fernanda Torres, com suas duas polegadas a menos, é a musa do verão e, aos 59 anos, moderniza o conceito de sensualidade que faltou, 60 anos atrás, na receita de Vinícius de Moraes

As muito bonitas que me perdoem, a Paolla Oliveira que me desculpe, mas ser engraçada, assim como a Fernanda Torres, é fundamental.

Não se sabe exatamente o ano em que Vinícius de Moraes escreveu “Receita de mulher”, o poema que plagiei no primeiro parágrafo e do qual divergirei nos próximos. Foi na década de 1950. O mundo estava destroçado pela guerra, havia uma necessidade vital de reconstrução e beleza. Deve ter sido por isso. Vinicius desenhou em versos uma mulher cujo rosto lembrasse “um templo”, os seios fossem “uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca”, e iluminassem “o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas”.

Não era uma mulher, era um projeto arquitetônico – e a propósito é preciso dizer que o mestre Oscar Niemeyer foi mais elegante. Quando misturou sua obra com as mulheres, o arquiteto fez o contrário de Vinicius – construiu cidades, prédios e monumentos inspirados nas curvas femininas. Niemeyer dizia que “A vida é uma mulher do lado e seja o que Deus quiser”. Não desenhou como essa mulher deveria ser, não receitou “extremidades magras”, em que uns “ossos despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas”.

Eu, que tenho a frase do arquiteto tatuada na omoplata esquerda, faria o mesmo. Aceitaria que essa mulher fosse aquela que Deus quisesse que me fosse, até poderia ter o “latifúndio dorsal” exigido pelo poeta na receita, nada contra, mas Senhor!, por caridade, que tivesse o borogodó de, na rua, na cama ou na fazenda, me fazer rir.

Eu vi Demi Moore nua em “A Substância”, Nicole Kidman de quatro em “Babygirl”. Nada é tão inspirador quanto o vídeo da Fernanda Torres e Ariana Grande, as duas às gargalhadas, se abraçando, se tocando, e batendo cabelo na porta de um festival.

As mulatas do Oba-Oba, as coelhinhas da Playboy, as Paquitas, as Chacretes, as Boletes, as Misses, as Certinhas do Lalau, as Garotas do Alceu, as Garotas de Ipanema e as Rainhas de Bateria. Sorry, queridas.

Admiro-lhes a ventura de terem as “saboneteiras”, os “pescoços longos” e a “boca fresca (nunca úmida)”. Vocês são glórias nacionais, aparelhadas na medida e nada mais, feitinhas pro Vinicius de Moraes, mas todo o meu reino para mulher com senso de humor, que ri de si mesma e serve alegria de afrodisíaco.

Fernanda Torres, com suas duas polegadas a menos, o ar de moleca madura dona da situação, é a musa do verão. Ela moderniza o conceito de sensualidade e aos 59 anos acrescenta o que faltou, 60 anos atrás, na receita de Vinícius – a inteligência de não se levar a sério, o deboche à busca da perfeição e o divertido que é uma tijucana no Oscar.

Semana passada, ela subiu em mais um palco para divulgar “Ainda estou aqui” e causou espanto porque vinha num vestido que lhe cobria os calcanhares. Ao se sentar para a entrevista, no entanto, a atriz fez com que a parte central da roupa se abrisse teatralmente e, sorrindo de lado, sublinhando a cena com olhos maliciosos, deu em câmera lenta uma cruzada de pernas. Expôs apenas as canelas e o joelho, mas a coisa, pelo tom de humor, ficou tão sacana quanto a descruzada, sem calcinha, da Sharon Stone. Um tesão. A mulher engraçada é a nova gostosa, e ri: “Eu me sinto o Pikachu.”

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