Crítica: Fernanda Torres faz um milagre de coragem materna em ‘I’m Still Here’ (Ainda Estou Aqui)

Do LOS ANGELES TIMES
Por CARLOS AGUILAR
O suflê está quase pronto na casa dos Paiva, do outro lado da rua da praia, no abafado Rio de Janeiro, Brasil. Pela atmosfera inconfundivelmente festiva dentro dos cômodos arejados da casa, não se poderia imaginar que o país está sob uma feroz ditadura militar.
O fato de Walter Salles, o aclamado diretor de “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”, retratar pela primeira vez a família unida de “Ainda Estou Aqui” em sua forma mais efervescente, antes que a tragédia aconteça, paga dividendos dramáticos neste drama notavelmente afirmativo da vida, em grande parte ambientado em 1971 e baseado no livro de memórias de 2015 de Marcelo Paiva (o único filho dos Paivas). Candidato ao Oscar de longa-metragem internacional, “I’m Still Here” destila brilhantemente um capítulo agonizante do passado recente de uma nação em um retrato sofisticado de resistência comunitária.
Já elogiada por sua atuação silenciosa com uma surpreendente vitória no Globo de Ouro (a primeira atriz brasileira a receber o prêmio), Fernanda Torres interpreta Eunice Paiva, mãe de cinco filhos que é casada com o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello). Vemos a preocupação reprimida em seu rosto sinalizando perigo incipiente: helicópteros vagam pela cidade enquanto notícias de embaixadores sequestrados saem do rádio.
Dentro das paredes da residência do Paiva, Salles e seu elenco de atores experientes e de rosto fresco criam uma dinâmica vibrante e vivida, irradiando afeto e liberdade despreocupada. E porque estivemos tão maravilhosamente imersos na exuberância que todos eles estão prestes a perder, quando a escuridão chega à sua porta, na forma de capangas que levam Rubens para interrogatório, o contraste entre quem eles eram e quem eles se tornam parece gritante.
A essa altura, Mello estabeleceu potentemente o calor paternal de que sua família sentirá muita falta. Nessa ausência, a memória se torna central para “I’m Still Here”. A narrativa é intercalada com filmes caseiros filmados em uma câmera de 8 mm, imortalizando exemplos sinceros de lazer e amor, aqueles que realmente importam. Eles não são apenas indeléveis na mente dos Paivas, mas são preservados para sempre em fotos estáticas, na escrita de Marcelo Paiva e agora na tela através da interpretação fílmica de Salles.
O diretor e diretor de fotografia Adrian Teijido também faz da casa uma co-estrela mutável e uma metáfora física para o Brasil como um todo. Outrora um lugar onde amigos e familiares entravam por portas perpetuamente abertas, o espaço torna-se hermético e sem ar quando as cortinas são fechadas para esconder os homens que vieram para perturbar este refúgio idílico. Por meio deles, a ditadura instila medo e desconfiança para manter o poder. Salles comunica a angústia sancionada pelo Estado, concentrando-se nos rituais cotidianos da família.
Eunice responde oferecendo almoço a esses capangas – talvez na esperança de que sua provação termine mais cedo, mas também como uma declaração do tipo de pessoa que ela é, mesmo para aqueles que podem machucá-la. (Eventualmente, ela e uma de suas filhas são detidas e interrogadas, depois liberadas.) Esses detalhes aparentemente silenciosos sobre sua rica personalidade vêm das reminiscências íntimas de Marcelo Paiva sobre sua mãe e a experiência coletiva dos Paiva após o desaparecimento de Rubens, habilmente adaptada pelos roteiristas Murilo Hauser e Heitor Lorega.
Torres exala a fortaleza pouco chamativa de uma mulher incapaz e sem vontade de se render ao desespero com o passar dos dias e semanas. Como ela pode quando deve criar seus filhos e buscar justiça para seu marido, que ainda pode estar vivo? Transmitindo contenção magistral, Torres faz com que as poucas explosões de Eunice pareçam críveis contidas. O mais distante possível do melodrama, sua performance é de luto internalizado.
E, no entanto, em meio ao seu luto oculto, Eunice trata as pessoas ao seu redor com compreensão amorosa, empática com seus respectivos medos e as limitações do que eles podem fazer por ela. Ela se move pelo mundo com uma determinação humilde, sem medo de fazer o que precisa ser feito, nunca se debruçando sobre o que poderia ou deveria ter sido feito. A cada passo, reconhecemos seu desejo de poupar seus filhos da tristeza que carrega. Guardiã de seus corações ternos, ela só pode esconder muito em uma realidade autoritária.
Mesmo poucos momentos depois de receber uma notícia esmagadora, Eunice reúne um sorriso para sua filha mais nova e a energia para levar toda a turma para tomar sorvete, buscando recuperar uma aparência do que costumavam ter. Esse amálgama de um orgulho gracioso durante uma crise e determinação sobre-humana é crucial para a personificação de Torres da força interior de Eunice. E porque ela é percebida como quase inquebrável, quando a tristeza escapa por seus olhos em um olhar perdido ou um silêncio ponderado, a expressão de Torres é lindamente eviscerante.
Atuações desse calibre sutil raramente são celebradas, mas a virada despretensiosa de Torres provou ser inegável para quem a assiste. Para um filme como “Ainda Estou Aqui” emergir do outro lado da presidência repressiva de Jair Bolsonaro e ser abraçado em casa e no exterior com tanta seriedade (é a maior bilheteria do Brasil desde a pandemia) é uma prova da mão segura de direção de Salles que trata o assunto delicado com a seriedade que merece, ao mesmo tempo em que destaca a humanidade em vez da brutalidade. Há uma elegância impressionante em suas imagens em como elas nos aproximam das pessoas, não dos horrores.
Quando um fotógrafo sugere que a família pose com um comportamento sombrio para uma foto que será apresentada em um artigo sobre o desaparecimento de Rubens, Eunice se recusa, instruindo seus filhos a sorrir amplamente. A alegria se mostra desafiadora para os opressores sombrios que desejam ver seus “inimigos” sofrerem. A vitória de Eunice, testemunhada por Marcelo Paiva e ressuscitada por Torres (e, brevemente, pela lenda brasileira Fernanda Montenegro, mãe de Torres indicada ao Oscar), não é apenas sobre sobrevivência, mas sobre a promoção de uma família unida na adversidade.
A resistência assume a forma de vidas bem vividas. Em cada risada compartilhada, em cada nova lembrança feita e foto de família tirada, este clã homenageia aqueles que não estão mais fisicamente presentes.
