A alarmante internacionalização das facções brasileiras

Da FOLHA
EDITORIAL
Relatório aponta a presença de máfias estrangeiras no país; urge integração entre autoridades, inteligência e rastreamento do dinheiro
A recente emboscada em que encapuzados com fuzis assassinaram um delator do Primeiro Comando da Capital no maior aeroporto do país, ainda em apuração, não deixa de ser um indicativo de que facções brasileiras se assemelham cada vez mais a cartéis e máfias transnacionais, tanto na metodologia como na sofisticação de suas atividades criminosas.
Se de início quadrilhas como o PCC atuavam localmente, sobretudo em assaltos, tráfico de drogas e no controle paralelo de unidades prisionais, a expansão delituosa ganhou novos contornos.
Entre outros, na lavagem de dinheiro, com criptomoedas e bancos digitais, que dificultam o rastreamento; na infiltração no poder público, com cargos eletivos e suspeitas de envolvimento com prefeituras; e em conexões com congêneres de outros países.
Neste último, um relatório a ser divulgado nesta semana aponta um intercâmbio crescente de facções com grupo do exterior, principalmente da América Latina.
O estudo, uma parceria de Diálogo Interamericano, Fundação Fernando Henrique Cardoso e Instituto de Relações Internacionais da USP, analisou políticas de segurança implementadas em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Ainda que a profissionalização do banditismo e a escalada da violência estejam em níveis menos alarmantes por aqui, o documento revela o aumento da presença de cartéis mexicanos, colombianos, venezuelanos e até albaneses em território nacional.
Notou-se, a exemplo dos “maras”, como são conhecidas as gangues da América Central, avanço nas práticas de extorsão, no controle de territórios —especialmente onde a presença do Estado é deficitária— e na influência em administrações municipais.
O narcoestado colombiano dos anos 1990 ou a atual realidade mexicana ainda podem ser fantasmas distantes, mas já há no país 72 facções criminosas vinculadas à venda de entorpecentes.
Cumpre ao Brasil intensificar desde já a colaboração entre entes federativos, polícias, Forças Armadas, serviços de inteligência e autoridades internacionais, além de enfrentar a porosidade das fronteiras. O melhor caminho é “seguir o dinheiro”, estratégia cujo objetivo visa estrangular transações financeiras e inviabilizar as múltiplas e complexas ações do crime organizado.
Trata-se de tarefa hercúlea, mas a progressiva descriminalização das drogas, apoiada por esta Folha, pode ajudar a concentrar esforços e agentes públicos no combate aos grandes distribuidores —em vez de ações inócuas contra varejistas e usuários.
