Abuso infantil crescente

Da FOLHA
Por PRISCILLA BACALHAU
Nós continuamos fingindo não ver e em contínuo desconforto ao se falar sobre o tema
Com a morte da cantora irlandesa Sinéad O’Connor nesta semana, voltou aos noticiários um ato que marcou sua carreira. A artista era considerada uma estrela decolando, com músicas fazendo estrondoso sucesso. Mas não era por seus singles que ela gostaria de ser lembrada. O ano era 1992 e O’Connor escolheu o palco do programa Saturday Night Live para adaptar a música War, de Bob Marley, e protestar contra os casos de abuso infantil ocorridos e escondidos pela Igreja Católica, rasgando uma foto do papa João Paulo 2º ao vivo de frente para as câmeras e deixando a plateia atônita.
Anos mais tarde, O’Connor deixaria explícito que o problema não era pessoal com o papa, mas sim com o que ele representava: instituições sistematicamente acobertando crimes sexuais contra crianças.
Trinta anos se passaram, mas o tema de abuso sexual contra crianças e adolescentes ainda está longe de ser resolvido —e nós continuamos fingindo não ver e em contínuo desconforto ao se falar sobre o tema.
No Brasil, os números só pioram. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado no último dia 20, apontam que os crimes sexuais contra crianças e adolescentes cresceram em 2022, com o maior aumento proporcional entre os tipos de violência.
Estupro é o tipo de crime mais preponderante contra menores e o que mais cresceu. Foram quase 75 mil registros totais de estupros em 2022, sendo 61,4% contra crianças menores de 14 anos. Há uma maior incidência em meninas negras como vítimas e os casos ocorrem majoritariamente dentro da residência da vítima, tendo como autor um conhecido da família.
Obviamente, o aumento do número de casos no último ano pode ser um reflexo de mais registros, e não um aumento real dos casos. Para a maioria das crianças vítimas de crimes sexuais, a escola cumpre um papel indispensável de identificação desses casos, e é razoável supor que as denúncias foram afetadas pelo fechamento das escolas no início da pandemia, antes de 2022.
Nesse sentido, a retomada da educação sexual nas escolas, anunciada nesta semana pelo Ministério da Saúde como parte do Programa Saúde na Escola, é bem-vinda e urgente. O programa existe desde 2007, mas a pauta da educação sexual foi negligenciada nos últimos anos, que se restringiu a tópicos como alimentação saudável e obesidade. Além de identificar casos de violência, educação sexual nas escolas tem o potencial de empoderar crianças e jovens para se protegerem e buscarem ajuda.
Assim como o público do Saturday Night Live naquela noite de 1992, nossa sociedade ainda parece ficar sem reação em relação aos números de crimes sexuais contra crianças. Passou da hora de reagir.
