Esporte, sociedade e violência: tudo se move e se mistura

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Discordar de Milly Lacombe e Casagrande é saudável; atacá-los é inútil covardia

Walter Casagrande é criticado quando fala mais de política que de esporte.

Milly Lacombe, também.

São bem-vindos ao clube, e não é de hoje, mas talvez nunca tenham sido devidamente saudados.

Casão às vezes exagera? Sim, de fato, mas mil vezes a indignação dele que o silêncio e, pior, a cumplicidade dos que o criticam porque fazem o pior tipo de política, a que bate palmas para o fascismo, o genocídio, a violência.

Milly está na berlinda por ter relacionado o destempero de figura pública como Abel Ferreira ao feminicídio —que aumenta nos fins de semana por causa de derrotas no futebol.

A dificuldade de conectar o Tico e o Teco explica a incapacidade de outras conexões igualmente óbvias.

Aos que trazem tal deficiência do berço, antecipadamente fica aqui registrado o pedido de desculpas.

Aos que vociferam por mera escolha ideológica, o desprezo.

Porque estes exteriorizam apenas preconceitos, insensibilidade e nenhuma preocupação com o próximo.

São os que tratam mulheres como objetos, dizem que não são racistas porque têm amigos pretos, que não fascistas porque o vizinho é judeu.

Casão e Milly são um prato para essa gente.

Um sofre de dependência química e, por mais exemplar que seja na luta contra a doença, é atacado por padecer do mal que vem do DNA.

A outra é vítima por ter nascido mulher e por sua orientação sexual. Ah, sim, por favor!, orientação, não opção sexual, algo que muita gente até boa ainda não entendeu.

A naturalização da violência, fenômeno ampliado pelo angustiante fenômeno das redes antissociais, reino também da idiotia, é tamanha que há quem queira minimizar a atitude do jogador Wallace, o que publica enquete sobre dar tiro na cara do presidente da República. Afinal, ele se desculpou.

Daí a deputada persegue eleitor com revólver, bandido mata o aniversariante por dar festa com foto de candidato, treinador e jogadores estupram e assediam mulheres indefesas, e tudo bem.

O eleitor não tinha nada que abordar a parlamentar, a menina menor de idade não deveria ter ido ao quarto dos rapazes e aquelas mulheres se estavam na boate àquela hora coisa boa não eram.

E vamos todos votar no cara cujo ídolo é simplesmente famigerado torturador!

Chega de complacência e de passar pano para atrocidades.

Basta de impunidade para golpistas que não sabem de nada, que se limitaram a ouvir o meliante propor gravar o ministro do STF e não o denunciaram, ou que não sabem quem entregou a minuta ou perderam o celular na Flórida.

É óbvio que Abel Ferreira não é responsável pela barbárie brasileira, e ninguém disse isso. Fez-se apenas um alerta aos que têm de dar exemplo, assim como o treinador palmeirense aludiu a Ayrton Senna e Pep Guardiola sem que com isso tenha se comparado a eles —quis só mostrar que no campo da competição se cometem exageros.

Discordar de Milly e do Casão é saudável. E frequente.

Atacá-los é inútil covardia.

Porque não se calarão, estão calejados e não são criminosos.

Não expuseram a intimidade de ninguém, não ameaçaram quem quer que seja, não cometeram violência nenhuma e defendem a democracia, sem ganhar um tostão por isso.

Além de serem, repita-se à exaustão, muito bem-vindos ao clube dos que sabem que o futebol imita a vida e vice-versa.

Suavemente, é o que Tostāo faz.

Questão de estilo. E que estilo!

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