Dar palco para teoria do ‘racismo preto antibranco’ não é pluralismo de ideias

Da FOLHA
Por FLÁVIA BOGGIO
Quando informações perversas saem nos veículos que deveriam desmenti-las, o tal jornal renomado vira um tiozão do zap
Existe uma predisposição do ser humano de criar todo o tipo de artimanha para provar suas ideias, mesmo que esteja completamente errado.
Para validar seu ponto de vista, tende a pesquisar por estudos pontuais ou experiências pessoais. O indivíduo não se dá ao trabalho de pesquisar por informações que façam contraponto à sua teoria ou estudos endossados pela comunidade científica.
Outro dia, ouvi um conhecido dizer que não acredita em aquecimento global, pois, sempre que sobrevoa os Alpes, vê neve sobre as montanhas. Ele usou uma experiência pessoal para não se preocupar com o fato de que estamos à beira de um apocalipse climático. Além de se passar por um completo idiota.
Alguns chamam esse fenômeno de “viés de confirmação”, que é um nome simpático para ignorância mesmo. Muitas vezes, ela vem acompanhada de má-fé. Nesses tempos de fake news, o ambiente nunca foi tão favorável para se espalhar teorias perversas, que desmoralizam estudos, indivíduos e grupos minoritários.
Normalmente, são publicadas por meios de comunicação suspeitos, sem fonte ou autoria, e espalhadas por redes sociais, como grupos de WhatsApp. Algumas vezes, entretanto, essas teorias são publicadas por veículos que, a princípio, deveriam desmentir falsas informações. É quando o tal jornal renomado faz o papel de tiozão do zap.
Ao usar a justificativa do pluralismo, a Folha abriga um amplo espectro de opiniões, mas também abre espaço para divulgadores de teorias tendenciosas. Com a desculpa de “estou indo contra o senso comum”, eles se baseiam em dados pontuais para negar fatos históricos.
Usar ataques de alguns homens negros contra brancos no metrô de Washington, “boicote preto” a um armazém no Brooklyn ou posicionamentos políticos de alguns grupos americanos para sustentar a teoria desonesta do “racismo preto antibranco” não pode ser chamado de pluralismo de ideias.
Tem como único objetivo descredibilizar a dor de quem ainda sofre as consequências de séculos de escravidão e vive em um sistema que os coloca à margem. A parcela branca, para não perder seus privilegiados, usa artimanhas cruéis como “liberdade”, “meritocracia” e “racismo negro”.
Que o tal “pluralismo” da Folha não seja também uma dessas artimanhas.
