Da Carta Capital
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Outra visão
Sócrates
Quando jogava em Ribeirão Preto e ainda fazia faculdade, a rivalidade entre os dois times da cidade era acirrada e as provocações eventualmente produziam conflitos de diferentes intensidades. Umas mais bem-humoradas – como desfilar com um caixão mortuário com o nome do perdedor –, outras nem tanto. Mesmo assim a violência era infinitamente menor do que é hoje. Dentro de campo imperava algo lúdico, mais belo e com maior preocupação com a estética do espetáculo do que com o uso de artifícios para buscar, através de inúmeros métodos, vantagens nem sempre lógicas ou lícitas.
Porém, jogando futebol, foi nessa época a única vez em que me senti agredido, humilhado e surpreso com um acontecimento que, mais à frente, vocês tomarão conhecimento. Era um desses clássicos da cidade. A partida não estava lá grande coisa e o jogo se arrastava para um final melancólico, já que nenhum dos dois times havia feito o suficiente para vencer. Foi quando, em uma jogada na área adversária, cheguei tarde na bola e o goleiro do Comercial conseguiu controlá-la com tranqüilidade. Estanquei a minha corrida e já me preparava para voltar ao meio-de-campo, esperando a reposição da bola, quando, inesperadamente e sem nenhuma causa compreensível, o jogador adversário ainda com a bola nos braços me desferiu um soco certeiro e violentíssimo, como se estivéssemos em um ringue de boxe.
Nocaute. Com o rosto dolorido e vermelho, desmoronei no gramado como se fosse um traste inválido. Caído, ainda recebi um chute de outro inimigo (visceral), que nem sei de onde veio e onde me atingiu, pois naquele instante tudo que de mim se aproximava lembrava os antigos gladiadores do Império Romano em plena arena do Coliseu a massacrar quem por lá estivesse, e só pensava em me proteger.
A auto-estima nos segundos seguintes a uma agressão desse tipo parece ser obra de algum psiquiatra maluco, inventando um monstro. Mas só por alguns segundos, já que nosso instinto nos leva a reagir de forma dura e proporcional ao que estamos sentindo, o que nem sempre é bem administrado.
O que aconteceu posteriormente, no complemento do jogo, não vem ao caso analisar neste momento, porém, alguns anos mais tarde fui convocado a prestar um longo depoimento sobre esse episódio e só aí me dei conta de que os dois jogadores haviam sido indiciados por aquela agressão. E nem fui eu quem tomou a iniciativa de entrar com o processo e, sim, um advogado que assistia à partida. Como tudo aquilo culminou eu não sei, mas aprendi ali uma excelente lição que muitas vezes me fez refletir sobre como agir quando estivesse em campo e na presença do público.
Por outro lado, no domingo 1º acompanhamos uma grande confusão ocorrida no Recife, durante o jogo entre Náutico e Botafogo. O pivô foi o zagueiro André Luiz. Revoltado com a sua expulsão do gramado, fez gestos obscenos para a torcida e chutou um copo d’água, que acabou atingindo um torcedor. Isso provocou uma ação da PM presente ao Estádio dos Aflitos, que, acredito, deva ter dado voz de prisão ao jogador mesmo antes de ele ter esperneado e reagido, o que acabou sendo entendido também como outro delito: desacato à autoridade. Todo mundo saiu em defesa do jogador, caracterizando a ação da PM como abusiva.
Na verdade, existe neste meio uma tendência a todos se acharem imunes em relação aos seus atos – desviando eventuais penalidades para a esfera esportiva –, esquecendo-se de que uma partida de futebol é um espetáculo público e que as regras sociais – ou seja, as leis – devem ser respeitadas por todos os participantes, inclusive e principalmente pelos atletas que são os artistas do mesmo.
Não sou especialista em Direito, mas a minha intuição, caso esteja certa, leva-me a achar que as atitudes do jogador do Botafogo (exatamente como as dos meus dois algozes) extrapolaram as divisas do campo de jogo e que alguma atitude deveria ser tomada imediatamente após a sua explosão inconseqüente. Não me pergunte qual, pois não saberia dizer. Muito menos se a ação da PM foi correta ou não.
O que me interessa discutir aqui é o comportamento de determinados atletas (ou uma boa parcela deles), quando são contrariados em suas convicções. Agem como meninos mimados, mesmo usando calças compridas há muito tempo. Necessitaríamos de muito mais papel para entender o que aconteceu, mas de uma coisa não tenho nenhuma dúvida: há de se educar melhor esse povo para que possa respeitar e ser respeitado.
