
Da “FOLHA”
Por JUCA KFOURI
“Contamos nos dedos das mãos os ídolos esportivos brasileiros com postura cidadã”
CRESCI OUVINDO dizer que de Pelé deveríamos exigir o que fazia nos gramados e que não se deveria esperar nada além disso. Não era uma crítica ao Rei, era uma atenuante, um gesto de compreensão.
Pelé chegou a ministro, deixou uma lei que foi um avanço e se perdeu em seguida num acordo espúrio com os cartolas que havia ajudado a deixar de joelhos e sem oxigênio.
Negócios, negócios, negócios.
Ronaldo Fenômeno fez o que fez dentro de campo, ameaçou uma postura crítica no fim da carreira e voltou aos braços da cartolagem predadora.
Neymar segue o bloco.
Talvez seja até cruel esperar algo diferente dele além de uma platitude qualquer sobre os que infelicitam nos bastidores o nosso futebol.
Por que quantos são os nossos ídolos do futebol que assumiram, enquanto jogavam ou depois, uma atitude de ruptura com os desmandos da superestrutura de nosso esporte?
Procure e constate que você conta nos dedos – e, se duvidar, de uma mão.
Millôr Fernandes já ensinou que quem se curva diante dos poderosos mostra o traseiro para os oprimidos, e a falta de coluna, a vertebral, é, de fato, o maior problema de nossos ídolos, além da ignorância.
E vamos nós de Afonsinho, o libertário que se insurgiu contra a Lei do Passe, ganhou a guerra na Justiça e foi marginalizado pelos cartolas.
E de Tostão -que, além da vertebral, tem a estupenda coluna que tem no jornal.
E de Sócrates.
Por coincidência, ou melhor, não por coincidência, todos médicos, bem formados, cidadãos brasileiros sem rabo preso com ninguém.
Claro, houve outros rebeldes e ainda os há, como Paulo César Caju, como Walter Casagrande Júnior, mas que pouco discutem o poder.
Como há um Raí, recentemente agraciado com o Laureus pelo que faz em sua ótima ONG Gol de Letra e, além do mais, um dos cabeças do movimento Atletas pela Cidadania.
Só que a ruptura com o que aí está passa ao largo das ações concretas dessas iniciativas, belas, sem dúvidas, mas que dão um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não brigar. E os clubes?
O SILÊNCIO DOS CULPADOS
Os clubes nada têm de inocentes. A tudo veem calados, acovardados como vaquinhas de presépio indo para o corte. Ou para a corte.