Ícone do site

Detergente no gargalo é novo retrato do vale-tudo bolsonarista nas redes

Anúncios

Da FOLHA

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Políticos atacam Anvisa e fazem discurso anticiência em busca de engajamento e voto

O vídeo circula desde domingo, impulsionado por perfis de extrema direita. Um homem de boné e camiseta bebe um frasco de detergente até a última gota. Suga o líquido com vontade, como se matasse a sede após atravessar o deserto. Em seguida, vira-se para a câmera e faz um gesto obsceno. “Aqui para você, petista”, provoca, exibindo o dedo médio.

O detergente é da marca Ypê, que teve a fabricação suspensa na semana passada. A decisão foi da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que apontou risco de contaminação num lote inteiro de produtos de limpeza. Para os bolsonaristas, tudo não passou de um complô. O objetivo seria prejudicar a empresa, cujos donos doaram R$ 1,5 milhão à campanha do capitão em 2022.

O homem de boné não está sozinho. As redes sociais ficaram apinhadas de vídeos semelhantes, em que anônimos e subcelebridades se lambuzam de detergente sob suspeita. “Já tomei banho com Ypê”, garante um ator de telenovelas. “Se eu não usar, passo até mal”, jura uma cantora de funk.

Enquanto os aspirantes à fama caçam cliques, políticos usam o tema para caçar votos. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou uma foto do detergente ao sol, sob a legenda “Que dia lindo”. O senador Cleitinho Azevedo se deixou filmar espirrando o produto num córrego com esgoto a céu aberto, como se uma bactéria justificasse a outra. O deputado Sargento Fahur preferiu usar um frasco na versão amarela para lavar o bigode.

Não é a primeira vez que a turma se insurge contra decisões técnicas da Anvisa. Na pandemia, Jair Bolsonaro se irritou porque a autoridade sanitária não aceitou receitar vermífugo como remédio contra a Covid-19. Depois estrilou quando a agência autorizou a vacinação de crianças. “Qual é o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, questionou, no mesmo tom dos patriotas que agora fazem degustação de detergente.

O discurso anticiência já foi sinônimo de ignorância. Hoje parece ser visto como uma ferramenta a mais na batalha política. Em busca de engajamento nas redes, extremistas espalham desinformação e investem contra a saúde pública. Para mobilizar a tropa, vale tudo. Até tomar bactéria no gargalo.


Facebook Comments
Sair da versão mobile