
Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
- Um homem que relaciona a ‘chatice’ alheia a uma condição fisiológica feminina vê o feminino como uma subcategoria emocional
- O mundo mudou, mas o jogador prefere ficar parado no tempo
Neymar Jr. é o nosso eterno caso de estudo sobre como o talento nos pés pode ser inversamente proporcional à noção na ponta da língua. O “menino” de trinta e tantos anos, que ainda vive sob a redoma de uma indulgência messiânica, conseguiu mais uma proeza: transformar uma reclamação banal de arbitragem num tratado internacional sobre a anatomia do machismo brasileiro.
Após a vitória do Santos sobre o Remo, incomodado com um cartão amarelo, Neymar diagnosticou o árbitro Sávio Pereira Sampaio: “acordou meio de chico”. Para quem vive em Marte ou no departamento de relações públicas do jogador, “chico” é aquele eufemismo gasto para a menstruação. A frase é o clássico do machismo de botequim: se alguém está mal-humorado ou é rigoroso, só pode estar sob o domínio de hormônios femininos descontrolados. Afinal, no mundo de Neymar, a estabilidade emocional é um privilégio exclusivamente masculino, certo?
A imprensa internacional, sempre pronta para dissecar o nosso “eterno futuro melhor do mundo”, caiu em cima. O L’Équipe e o Sport falaram em misoginia. Os franceses, empenhados numa espécie de arqueologia linguística, explicaram que “chico” vem de “chiqueiro”, remetendo a uma época em que o sangue menstrual era visto como algo sujo. Confesso: nem eu sabia dessa origem. Para a maioria de nós, era apenas uma gíria corrente, usada inclusive por mulheres quando queriam avisar que o ciclo tinha chegado sem precisar soletrar a palavra. Mas o mundo mudou, e Neymar, como sabemos, prefere ficar parado no tempo, desde que o tempo tenha bons patrocinadores.
É aqui que precisamos separar o machismo estrutural da misoginia tipificada que o Senado acabou de aprovar, numa lei para lá de vaga. Mas isso é outro problema. A misoginia, por definição, é o ódio, a aversão, o ataque sistemático e a humilhação pública. Tentar enquadrar a frase de Neymar nesse crime exige um esforço retórico digno de um ginasta olímpico. Não houve incitação ao ódio, houve apenas… Neymar sendo Neymar. Um homem que relaciona a “chatice” alheia a uma condição fisiológica feminina porque, no fundo, o feminino ainda é visto por ele como uma subcategoria emocional.
Neymar é machista? Sim, e não é por causa de uma frase. Ele é o personagem exemplar de um machismo naturalizado que trata desrespeito como “vacilo”, traição como “fraqueza de carne” e pedidos de desculpa no Instagram como prova de “grandeza”. Homens poderosos como ele contam com uma rede de segurança de bodes expiatórios e parças que suavizam o que, para qualquer outro mortal, seria apenas má educação ou falta de caráter.
No entanto, rotular qualquer comentário como misoginia é um desserviço à própria causa feminista. Estigmatizar a fisiologia alheia é um golpe baixo, sim. É preguiça intelectual? Com certeza. Mas não é ódio organizado.
A medicina e a naturalização da montanha-russa hormonal feminina já evoluíram o suficiente para transformar o ciclo numa rotina biológica, e não num atestado de histeria coletiva. Infelizmente, a ciência ainda não inventou uma vacina, um ansiolítico ou um transplante de neurônios que cure o machismo crônico, essa patologia que faz homens adultos acreditarem que regras, questionamentos, imposição de limites são fruto de um útero revoltado. Neymar não precisa ser arrastado para um tribunal de direitos humanos; precisa apenas de um espelho para que enxergue que é um homem de trinta anos e de um dicionário que não tenha sido editado em 1950.