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“Planejamos aquele gol com seis dias de antecedência”

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Da ÉPOCA

Por PAULO ROBERTO FALCÃO

Conheci o Sócrates de perto na Seleção Brasileira que disputou a Copa da Espanha, em 1982.

Era uma equipe de muitos capitães: eu cumpria essa função no internacional, o Zico no Flamengo e ele no Corinthians.

A braçadeira da Seleção ficou com o Magrão, e o time jogava no estilo dele: com passes rápidos, de primeira.

Mesmo o Zico, que era mais de carregar a bola e driblar, se adaptou.

O Magrão pensava muito rápido, recebia a bola já sabendo o que fazer com ela.

E tinha o toque de calcanhar, sua especialidade.

Ele usava como um drible desconcertante, que tirava os adversários da jogada.

Sempre foi uma figura diferente.

O Magro era muito impulsivo, dizia que não era atleta e que sua agenda só valia para os dez minutos seguintes.

Mas, para a copa de 1982, parou de fumar e de beber.

Ele realmente se entregou por aquele título.

Orientava muito em campo e era franco.

Dizia o que pensava e não fingia ser o que não era.

As pessoas podiam até discordar, mas era impossível não gostar dele.

Depois de assistir ao jogo Itália e Argentina, sentamos Magrão, Zico e eu para conversar.

Comentamos que o Claudio Gentile, da Itália, havia marcado Diego Maradona “homem a homem”.

Apostamos que, contra o Brasil, ele faria o mesmo com Zico.

Assim, sobraria espaço para Sócrates e eu chegarmos ao ataque.

Planejamos ali, com seis dias de antecedência, o primeiro gol do do Brasil na partida: Zico atraiu Gentile, o Magrão passou pelos dois, recebeu a bola livre e marcou.

Marquei o segundo, mas a Itália fez três.

Perdemos o jogo e a Copa.

Em 2004, a festa de 100 anos da FIFA reuniu, na mesma mesa, Zico, Sócrates, eu e Junior.

Quase 90% do tempo, falamos de 1982.

O Magrão disse: “Até hoje a gente discute porque perdeu e não chega a uma conclusão”.

Não há o que concluir.

Foi o destino, o mesmo que levou o Magrão.

Cheguei a integrar a equipe da Copa de 1986, mas só participei de dois jogos.

Quando deixei de ser titular, Sócrates foi muito solidário.

Eu estava na concentração, comendo, quando o Magrão veio e passou a mão na minha cabeça.

Não falou nada, mas ao mesmo tempo disse tudo.

Aquilo foi muito marcante.

Ele era muito sensível nessas horas.

Em setembro participei do programa que Magrão fazia na televisão.

Ele estava bem, parecia disposto, feliz.

Três dias depois, foi para o hospital com hemorragia e complicações no fígado.

Quando ninguém esperava, em 4 de dezembro, ele nos deixou.

Deu um calcanhar para a gente.

E pensar que morreu no dia em que o Corinthians foi campeão…

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