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O que importa é sediar

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Do “Lance”

Por JOSÉ LUIZ PORTELLA

Escondida pelo carnaval na coluna Holofote, da revista “Veja”, apareceu nota sobre Carlos Nuzman dizendo que ele teria caído em desgraça ou, pelo menos, “perdido a graça” com as autoridades do Ministério do Esporte.

Ele rejeitara a liberação de recursos para o projeto olímpico com base em metas como contrapartida.

O ministério só libera a grana se o COB cumprir metas intermediárias.

Para evitar desperdício e prestação de contas só depois do leite derramado, quando resta apenas lamentar.

A aparente desgraça do presidente do COB contrastava com entrevista posterior, em Vancouver, para o SporTV.

Lá, o professor Nuzman se apresentava, com toda a graça, metido numa fashion – todavia mal ajambrada – jaqueta para neve, branca, colocada sobre o terno.

Parecia vestida de improviso, número maior que o seu, posta para um visual esportivo a caráter.

Contudo, Nuzman não se mostrava improvisado.

Diante da repórter, deitava falação com ar professoral e desejo – nem tanto sutil – de arremeter contra os críticos.

Puxou orelhas dos brasileiros que cobram o COB pela conquista de medalhas, dando como exemplo o Canadá, que se dava por satisfeito em sediar competições mesmo enquanto não ganhou medalhas.

Bastava “o prazer” de ser sede. Servir já seria uma honra.

Nuzman nos esfregava um Pierre de Coubertin aprimorado: “O que importa é sediar”.

O glacial Canadá nos contemplava superando-nos em tolerância e passividade.

Como se já não bastasse a maneira gentil como boa parte da imprensa brasileira o poupa, sem questioná-lo,

Nuzman, o homem da jaqueta branca, insaciável, quer mais.

Parece nos dizer, subliminarmente, que devemos nos contentar com tudo o que ele nos proporciona.

A jovem e bonita repórter, que tem feito matérias simpáticas sobre Vancouver, não estava à vontade e nem ali para questioná-lo.

Hors-concours, Nuzman desfilava em passarela sem jurados.

Nuzman não gosta de cobranças.

Gosta do financiamento público.

Recomenda aceitarmos, com resignação e alegria, aquilo que recebemos.

Balirmos com orgulho.

Se o Ministério do Esporte tivesse condicionado liberar recursos para o Pan-Americano à apresentação de metas, muito provavelmente não estaria curtindo agora essa mágoa por Nuzman não aceitar metas.

Na época, valeram as teses Brasil varonil, Todos por um ideal, sem um olhar crítico.

Nuzman precisava desesperadamente do governo para atingir suas próprias metas.

Dessas ele gosta.

Optou-se pela tolerância.

Agora, Olimpíada por fazer, só nos resta, como ovelhas tropicais, ruminarmos o novo momento olímpico: “As metas de Nuzman são as nossas metas”.

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