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Palavra do Magrão

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Que tal fazermos história?

Por SÓCRATES

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A reação de narciso, técnico da equipe santista na Copa São Paulo de Futebol Júnior, ao tentar agredir o árbitro após a partida decisiva, exige uma reflexão. Principalmente por partir de quem possui uma história de vida cheia de percalços, de decepções e também da mais bela batalha a que um homem pode se dedicar, o resgate da saúde que lhe fugia às mãos.

Depois de sofrer com o aparecimento de uma leucemia que lhe tirou o trabalho e abalou os sonhos, e suplantá-la após um transplante de medula óssea, é incrível que ainda se porte dessa forma.

Parecia alguém que nunca passara por um problema dessa grandeza, alguém continuadamente exposto à ideologia dominante de que o sucesso, o desenvolvimentismo e o empreendedorismo são verdades inquestionáveis. Um claro exemplo da inquietação do homem atual que jamais se contenta com a simples satisfação dos seus desejos conscientes.

Se sentisse a vida como deveria, ele estaria mais que satisfeito de levar a sua equipe de garotos tão perto do cume com a possibilidade de se esbaldar nas lágrimas da vitória. E jamais se sentiria traído, caso esta efusão de felicidade fosse frustrada.

Quem já viu a morte de perto não deveria enfrentar os problemas humanos de forma rancorosa, emocional e agressiva como o técnico fez. E sim como uma honrosa derrota no jogo da vida, facilmente resgatável nos eventos que se seguirão, acompanhada de uma suave sensação de paz interior.

Mas, não! O que vimos foi um homem ferido por nada. Perdido na sordidez da expectativa da vitória que não veio e desesperado por não ter conseguido o resultado que, pensava ele, recuperaria o tempo, os sonhos e a posição anterior como se esta fosse fundamental para sentir-se vivo.

Podemos entender parte do que se passa no mais puro sentimento humano quando este se encontra na sua posição e chega perto da glória. Antes de tudo temos de entender que suas iniciativas, inquietações e habilidades subjetivas podem ser passadas aos comandados, mas são estes que executarão a tarefa e realizarão os seus sonhos.

Será a subjetividade associada à impotência de não portar as armas que poderão produzir a vitória, de modo a torná-lo mais sensível aos parâmetros externos que podem influir no resultado final. Ainda que a sua estratégia tenha sido adequadamente empregada pelos jogadores.

Imaginemos que tudo tenha sido corretamente analisado e que ele tenha capacitado sua equipe a obter um grau de excelência comprovado. E o resultado seja uma arte inquestionável e abundância de opções que deveriam levar seu time a ser superior ao adversário.

Desfrutaria, dessa forma, prazerosamente do sucesso com certa nostalgia, já que este mesmo sucesso gerencial o torna descartável e desnecessário – a equipe a partir de certo momento joga “por música”. Ou seja, não precisa mais de seu criador, do maestro que a dirigia.

Os homens sempre sonham em fazer história. Quando não conseguem, sucumbem. É o caso do técnico de futebol que tudo faz para ser o artista ou mais que ele e, no entanto, desaparece nos descaminhos da história por não fazer sentido homenagear quem está longe do palco.

Não impõe a sua arte e não expõe o seu talento por não chegar aos olhos da sociedade que ele mesmo criou. E essa contradição o corrói absurdamente, levando-o a comportamentos desequilibrados.

O sucesso depende da ação do homem, cuja motivação básica é o desejo de poder. Contudo, neste caso o poder se dilui em cada atleta, onde encontramos suficiente e precoce segurança econômica que o liberta do comando; que acaba se tornando secundário na plena expressão social. Inconsciente, é verdade, pois mesmo desorganizadamente continua a prevalecer a tentativa de impedir a transmissão de poder à nova geração, ainda que de modo mais ameno e menos arrogante.

De outra forma, nunca é demais lembrar as pressões que todos sofremos em nosso cotidiano, já que onde há um processo, esportivo que seja, existe um sentimento dominante de que todas as pessoas e instituições que foram capazes e/ou inovadores em determinado momento se tornarão em seguida ultrapassados.

Uma terrível pressão para a nossa eterna reconstrução e não sermos descartados. E quando temos consciência das nossas limitações, vemos somente a vitória ocasional e transitória como a única saída.

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