Como formar novos craques?
Por SÓCRATES
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Acompanhando a Taça São Paulo de Futebol Júnior, podemos notar como as coisas mudaram.
Antigamente, era nos times de várzea que nasciam nossos grandes jogadores.
Neles percebíamos que a maioria era de negros e mulatos.
Havia (e há) aqui uma estreita relação com a distribuição racial no nosso País, formada basicamente por descendentes de africanos, apesar da importante presença de várias outras colônias de todos os continentes.
Para esses afrodescendentes, em razão de sua situação social que infelizmente persiste até hoje, o futebol sempre foi uma das poucas chances de ascensão na pirâmide econômica social.
Desde, é claro, que possuam talento para o jogo.
A elite, até meados dos anos 70, apesar de controlar o gerenciamento do negócio, pouco se interessava em ocupar os espaços existentes no trabalho dentro de campo.
Os jogadores de futebol, assim como as dançarinas de cabaré, os atores e os que militavam nas artes plásticas, eram pouco valorizados pela sociedade e mesmo discriminados.
Esta profissão popular sempre foi, porém, uma grande oportunidade para que os jovens mais carentes pudessem se colocar e assim criar mais perspectivas para suas vidas e de suas famílias.
O grande time do Santos dos anos 60, para termos uma ideia, possuía praticamente todos os seus titulares negros, em destaque e contraste com o uniforme absolutamente alvo.
Ainda não tínhamos a explosão demográfica dos grandes centros urbanos, o grande fator desencadeador do nascimento das favelas na quantidade e condições de hoje.
A falta de uma política rural adequada e a indução à industrialização atraíram milhares de pessoas, principalmente do Nordeste brasileiro – mais pobre e eternamente assolado pela seca e pelo descaso das autoridades – para as maiores cidades do País, em busca de trabalho e subsistência.
Inclusive o presidente Lula – e, de certo modo, eu também – foi um dos retirantes a abandonar a terra natal, na esperança de uma vida melhor.
Infelizmente, essa migração desenfreada, em vez de oferecer oportunidades, criou mais e mais dificuldades, pois na cidade eles não encontraram facilidades e tiveram de buscar soluções criativas para os seus inúmeros problemas.
E foram a falta de recursos para moradia e o abandono do Estado brasileiro os fatores que o empurram para a ilegalidade, invadindo áreas públicas ou não para instalarem suas famílias.
E foi nas favelas – símbolo cruel da nossa realidade econômica – que muitos dos nossos grandes jogadores cresceram.
Viver, mesmo que eventualmente, a realidade de uma favela é um fator promotor de ojeriza em parte da sociedade brasileira; aquela abastada que dá as costas para os imensos problemas sociais que vivemos.
Conhecer a miséria, o desencanto e o abandono jamais estará nos planos dessa gente.
É como se os favelados fossem gente diferente.
São vistos por duvidosa e aparência repugnante.
Um outro mundo, uma outra espécie.
Esse sentimento, tão endemicamente presente na consciência de tantos, é o pleno exercício da rejeição a que esta parte da nação está submetida.
Uma fatia imensa do nosso povo que é desprezada de forma torpe.
Essa imagem é, porém, mais que falsa.
Nesses bolsões em que se reúnem milhões de famílias, cujo único objetivo e concessão é resistir, há muita inteligência, ética e sensibilidade.
Talvez muito mais que nos salões da riqueza, aqueles que nos fazem um dos piores países do planeta em distribuição de renda.
São pessoas que sabem o quanto vale um abraço, o sorriso e o pleno exercício da solidariedade.
São mais gente que a gente que os despreza e lhes nega o olhar em qualquer esquina da vida.
Uma indigência somente material, mas que por isso provoca repulsa.
Como se isso fosse a posse mais importante que poderíamos carregar.
Mas são de uma dignidade espantosa.
Infelizmente, a realidade mudou e os times de várzea, aqueles que ainda resistem, estão com os dias contados.
E com isso detectamos uma queda na qualidade dos atletas que estamos formando nos dias de hoje.
Ainda que notemos alguns de notório talento, estes hoje são minoria, o que deveria servir de alerta aos nossos gestores, já que uma das mais importantes fontes de renda dos nossos clubes é a transferência dos nossos jogadores.
Eis aí uma cruel verdade.
