*Democraticamente o blog publica, abaixo, o direito de resposta dos alunos da UNIBAN referente ao caso da menina Geysa, hostilizada por um grupo da Faculdade
São Bernardo do Campo, dezembro de 2009.
Há dias a história da “aluna agredida na UNIBAN” vem tomando conta do país e assombrando diversas pessoas ligadas à instituição.
Várias coisas foram ditas a respeito, mostrando, por enquanto, uma única face: a da “aluna agredida em virtude do vestido curto”.
A circulação de idéias equivocadas a esse respeito fez com que nós, alunos da UNIBAN, campus ABC, viéssemos expor nossa real condição: não de vítimas indefesas como tem se mostrado a protagonista do ocorrido, mas como alunos, universitários conscientes, e principalmente, pessoas que merecem ser respeitadas tanto quanto a aluna supracitada.
Para tanto, pretendemos discutir dois fatores importantes: o primeiro, a respeito da estimativa de 600 alunos diretamente envolvidos no ocorrido, conforme contabilização da própria instituição; e o segundo, acerca do ápice‟ – momento de saída da aluna, conforme podem comprovar o horário de gravação dos próprios vídeos exaustivamente exibidos.
Infelizmente, detalhes significativos não foram mencionados devidamente por alguns segmentos da mídia e, com isso, algumas distorções ocorreram.
Deste modo, o propósito deste comunicado, em nome de todos os universitários da UNIBAN, não pretende assumir condição parcial a respeito da instituição ou da aluna, nem pedir remissão de culpa a quem quer que seja; mas sim, discutir a estigmatização que tem marcado pessoas inocentes.
Nossa motivação parte do princípio de que tanto os alunos que participaram do ocorrido, a aluna, parcelas significativas da mídia e da população que massacraram a imagem da universidade e de seus respectivos alunos, acabaram por fazer parte de um modelo de sociedade sem propósito definido, sem malícia para reconhecer onde termina a liberdade e começa o respeito pelo outro, sem conseguir diferenciar moral e ética.
O que circulou por meio de diversos tipos de mídia é o repúdio à falta de respeito de todos os alunos da UNIBAN/ABC às escolhas do outro, discurso esse que algumas mídias fizeram questão de transmitir para o mundo, com base nas informações passadas pela óptica da aluna, esquecendo-se do princípio essencial da imparcialidade.
Os vídeos mostram, sim, alguns alunos gritando e ofendendo a moça, porém, mesmo que a consciência humana acredite na visão como argumento claro para o julgamento de qualquer tipo de situação, devemos refletir, considerando todos os fatores envolvidos.
Um site publicou um artigo acerca do „assunto do momento‟ e fez o seguinte comentário a respeito da postura de todos os universitários da instituição: “com o fim da ditadura, a eleição de Tancredo e a perspectiva de diretas em 1989 (…) Sem um inimigo claro, que no caso das gerações imediatamente anteriores à minha era o governo militar, ficamos sem ter do que reclamar”.
Mais um equívoco: não temos do que reclamar? Sempre teremos! Mas com certeza é muito mais cômodo simplesmente reproduzir o que ouvimos do que buscar saídas para tantos problemas que afligem nossa sociedade.
É mais cômodo que problematizar a situação e percebermos que a raiz de todo o acontecido não é o fato de a universidade ter pessoas que não pensam, mas que foram ensinadas (como a maioria da população), desde os primeiros anos escolares, a não desenvolver o espírito de questionamento e a visão de bem estar do todo.
O primeiro fator leva em consideração a quantificação, pois os dados sugerem que, na noite em que o fato ocorreu, dos 12.000 universitários que ali estudam, cerca de 600 estiveram envolvidos na desordem.
Pensemos: então, pelo menos 11.400 pessoas inocentes estão sendo julgadas de igual forma por estarem no local errado e na hora errada? E que hora era essa?
O segundo fator responde a questão tendo em vista a qualificação: os vídeos mostraram muitas pessoas pelos corredores, dando a idéia de que todos estavam ali por conta disso.
Na realidade, o que ainda não ficou esclarecido foi o fato de tantos alunos estarem fora de suas salas por se tratar da hora do intervalo, portanto, mesmo que esta lamentável circunstância não tivesse ocorrido, os alunos estariam transitando pelos corredores de igual forma, como ocorre em qualquer instituição de ensino.
Podemos então citar Bakhtin (1981, p. 86) quando diz que todo discurso “é constituído, na sua tessitura, por milhares de fios ideológicos”, já que o objetivo do sujeito é transmitir seus valores, suas crenças, suas visões de mundo; e o discurso é ainda mais ideológico se vem pautado em argumentos de apenas uma das partes envolvidas. E, a priori, omitindo dados que entrariam em conflito com o direito de ir e vir de todas as pessoas, não apenas de uma.
Podemos observar todos os dias, não só na UNIBAN, como em qualquer outra universidade ou local público, mulheres com saias, vestidos ou shorts curtíssimos e nem por isso são tratadas com tamanha hostilidade. Levantamos então as seguintes questões: “O que teria realmente motivado a manifestação desses 600 alunos?
Dos 12.000 alunos, quantos foram culpados, então? Os culpados receberam a devida punição? E os demais, que em nada tiveram a ver com o ocorrido, foram punidos além do âmbito universitário, no âmbito social? Por quê?”.
É evidente que todo indivíduo com o mínimo de senso crítico se questionaria a respeito.
Em 22 de outubro de 2009 aconteceu um fato condenável. Temos consciência disso e apoiamos a responsabilização dos culpados. Entretanto, não podemos receber a culpa generalizadora como legado. É importante pensarmos que nós, universitários, passamos a ser generalizadamente taxados de preconceituosos porque alguns tiveram uma atitude de pré conceito a respeito da aluna. Entretanto, fomos “pré julgados”, ofendidos, em escalas muito maiores, por pessoas que sequer presenciaram ou conheceram a real motivação do fato.
As acusações foram tão preconceituosas quanto qualquer tipo de atitude exposta que foi tomada. A exemplo: a Folha de São Paulo publicou um artigo com o seguinte título “Quarta maior universidade do país, UNIBAN investe na classe C” e aponta: “a instituição apostava em cursos para a classe média.
Dez anos depois, mudou de perfil e passou a buscar alunos mais pobres. Cortou custos e baixou as mensalidades, política que persiste até hoje (…) o crescimento rápido teve um forte impacto na qualidade dos cursos oferecidos (…)”. Não haverá aí algum tipo de preconceito?
O que nos espanta realmente é a forma como a notícia foi (e vem sendo) veiculada e como tomou proporções imensas (e contraditórias) até a massa ser atingida pelo senso comum que impera.
É como diria Zé Ramalho em uma de suas composições: “O povo foge da ignorância / Apesar de viver tão perto dela (…) Os automóveis ouvem a notícia / Os homens a publicam no jornal / (…) Vida de gado / Povo marcado Êh! / Povo feliz!”.
Aos „universitários‟ é sempre cobrada uma postura crítica e hoje somos atacados até por outros universitários que acham que ter postura crítica é fazer manifestos libertinos, com base em uma teoria massificada de que liberdade de expressão é fazer o que se quer, onde e quando se quer, e esquecem que antes disso é preciso ter a consciência do respeito pelo outro; e que a questão não é só o que queremos fazer, mas sim, o que podemos e se devemos fazer.
Da mesma forma, a revista Veja de pronto publicou: “A saia da moça e a ira dos boçais – Os estudantes da UNIBAN de São Bernardo engolem em silêncio mensalidades abusivas, professores medíocres e o sistema de ensino que fabrica fortes candidatos ao desemprego. Só não engolem uma jovem com a saia curtíssima.”
Se todos concordam em um ponto: que nenhum tipo de preconceito é aceitável, então não podemos ser repudiados pelas atitudes de alguns. Não podemos aceitar as ofensas que nos são dirigidas a todo momento, a ponto de prejudicar moral, social, profissional e academicamente os demais alunos.
O problema mudou de cara. E o que vem à tona é a forma como a consciência ingênua reina até nos lugares onde não deveria. É o fato de estarmos tão suscetíveis ao poder de manipulação que a mídia sensacionalista e o sistema capitalista têm e usam para desviar o olhar do povo para assuntos superficiais, a fim de obter vantagens individuais.
Com certeza é preciso uma reflexão mais ampla a respeito deste assunto, mas não de olhos fechados, sem observar as raízes da questão, sua motivação e todos os fatores realmente importantes que estão envolvidos. Caso contrário, corre-se o risco de assumir (in)voluntariamente a mesma condição do algoz a quem tanto se condena.