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Pão e Samba

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Por LARISSA BEPPLER

http://larissabeppler.wordpress.com/

 

“O bobo da corte cansou de todos os excessos: das roupas, dos gestos, das maquiagens. Enfim mirou o espelho… E o sobre o que viu apenas disse: ‘eu já sabia’.”

Durante todo o segundo semestre de 2009, quem acompanhou o Corinthians viu algo inédito acontecer com sua torcida. A diretoria promoveu o desmanche do time, desfez-se, de maneira amadora, de jogadores fundamentais e a torcida não protestou. O time, conhecido pela raça, abdicou publicamente do mais importante campeonato nacional. Não satisfeito, sofreu várias goleadas de equipes inferiores dentro de sua própria casa, nem lutou. E a Fiel continuou a fazer samba no estádio. Sequer um “Raça Timão” ecoava nas arquibancadas do Pacaembu durante apresentações vexatórias do alvinegro.

A principal torcida organizada do clube, a maior do país, que é conhecida como órgão fiscalizador, pois nasceu com o intuito de combater a corrupção que assolava (?) o Corinthians, hoje já não fiscaliza nada, pelo contrário, apoia tudo. De desmanche à descaracterização do time do povo. Apoio incondicional e irrestrito. Mas por quê?

O Sport Club Corinthians Paulista divulgou, em nota oficial, o que aparenta ser a razão para esta mudança de comportamento da Gaviões da Fiel Torcida. Não é, portanto, mera mudança de comportamento. É perda de rumo, prumo, dignidade e ideal.

A diretoria resolveu que financiará o carnaval “das agremiações que tem como principal tema de enredo o centenário do Clube”, mas todos sabem qual será a agremiação beneficiada. Esta ajuda é normal em muitos lugares e escolas de samba? É. Mas que me perdoem aqueles que ainda tem uma visão romântica e alimentam a falsa ilusão de um ideal que não existe mais: a Gaviões deixou de ser um órgão fiscalizador para se tornar uma torcida/escola de samba patrocinada pelo clube e, por isso, sem moral para realizar quaisquer cobranças. O negócio agora é sambar e, é bom que se saiba, no compasso dos cartolas.

Não há discurso que altere os fatos. Torcida existe para ajudar o seu time e não para ser ajudada pelos clubes, mas como o costume é inverter a ordem natural das coisas acontece, muitas vezes, de torcidas serem bancadas por dirigentes, como se o fato de não pagarem royalties pelo uso da marca já não fosse suficiente, porém, nesses casos, elas não podem se proclamar como sendo força independente ou órgão fiscalizador.

Em que pese à desmoralização pública da organizada em questão, a atitude dos dirigentes corinthianos é mais lamentável. Reverter a renda do jogo Corinthians x Flamengo, a ser adquirida via torcedores, sócios-torcedores inclusive, que pagam para ajudar o clube e não para financiar carnaval chegar a ser obsceno. A propósito, a justificativa para a majoração absurda no preço dos ingressos era justamente a de fazer o torcedor contribuir com a formação do esquadrão do centenário e não foram poucas as alegações de falta de recursos e dinheiro em caixa, aliás, por falta de dinheiro em caixa se justificou o desmanche que custou o pentacampeonato nacional ao Corinthians.

Quer dizer que agora o clube pode abrir mão da renda dos seus jogos? Ótimo. Já que é possível, a primeira atitude a ser tomada é diminuir os preços inflacionados dos ingressos e do plano Fiel-Torcedor. Não tem cabimento extorquir os corinthianos se o clube não necessita mais nem da renda de suas partidas, certo? Depois, o ideal seria resolver os problemas do Corinthians, sanar a sua dívida, por exemplo.

Não há necessidade ou justificativa plausível para que se retire verba direta de um jogo do Corinthians para bancar o carnaval de uma escola de samba que, além do mais, tem seus próprios recursos, adquiridos através do uso gratuito da marca do clube. O dinheiro do futebol deve ser aplicado no futebol, mas os cartolas devem achar que enganam alguém com esse discurso de que o Corinthians será promovido na avenida. Pura inversão de papéis. O Corinthians é que promove a escola de samba ao emprestar sua valiosa marca gratuitamente.

Quanto à Gaviões da Fiel, que não se ofenda, mas se o intuito é louvar o Corinthians no desfile carnavalesco, tal homenagem deveria ser um presente para o clube e não uma festa financiada pelo clube.

Apesar dos pesares, aqueles que vivem o Corinthians não foram surpreendidos com os fatos apresentados no comunicado, mas com a existência de um comunicado para oficializar aquilo que já era informalmente conhecido e, diga-se de passagem, severamente criticado. Talvez por isso o foco dos debates sobre o tema, nas redes sociais, concentrou-se na razão de se emitir um comunicado oficial que desabona diretoria e torcida.

As razões podem ter variáveis, mas seguindo o raciocínio inicial deste post é possível que os dirigentes tenham imaginado que torcedores permissivos e facilmente manipuláveis acreditariam em um texto cheio de floreios que, salvo engano, eles se viram obrigados a publicar, afinal, o fim do ano se aproxima e as contas a prestar também e, ao que tudo indica, os balancetes mostrarão que o clube precisa muito de dinheiro, tanto quanto os dirigentes precisarão de uma justificativa para a renda do jogo em Campinas não estar nos cofres do clube. A melhor maneira de explicar isso pode ser por meio de uma nota oficial repleta de floreios, que sugira que uma relação promíscua inaceitável seja vista como algo natural e bom para o clube.

Sensacional esse tal de “biziness”!

Nota do blog: Um texto irretocável ! Assino embaixo.

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