
Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
- Campeã do BBB disse durante o programa ser feliz sem ter marido ou filhos
- Liberdade incomoda quando faz parte do cotidiano de mulheres que se recusam a seguir roteiro pré-estabelecido
“Não sou casada, não tenho filhos, não tenho nada, sou livre e feliz do jeito que sou. Aproveita e envelhece para você ver que beleza que é.” Foi, assim, entre uma provocação e outra em cem dias de confinamento, que Ana Paula Renault, mineira de 44 anos, soltou a frase mais política do BBB26 – e acabou de vencer o programa com 75,94% dos votos.
É mais do que um desabafo, é um manifesto que cabe em muitas mulheres. Na solteira que cansou de ouvir, no almoço de domingo, o tio perguntar quando ela “vai se ajeitar”. Na casada que escolheu se casar, mas precisa justificar por que não quer filhos. Contempla a mãe que se recusa a abandonar a carreira e a própria identidade. Alcança a separada que diz que estar só é melhor do que sustentar um simulacro de união.
Liberdade não é um estado civil —é o verbo escolher conjugado na primeira pessoa do singular e em voz alta. É uma ação que incomoda quando passa a fazer parte da linguagem cotidiana de mulheres que se recusam a seguir o roteiro pré-estabelecido, escrito numa cartilha invisível e embolorada, mas ainda usada para determinar o compasso de nossas vidas.
Por isso, o diagnóstico de Ana Paula sobre sua trajetória encontra tanta identificação: “Me permiti ser malvista, ser verdadeira, ser eu mesma em um mundo que não gosta de mulheres livres”. Repare no peso da palavra: permitir. Em 2026, ainda temos que pedir licença para existir se nossa trajetória foge ao padrão. O preço da autonomia é o carimbo de chata, grossa, difícil, histérica, mal-amada. Há um vocabulário inteiro reservado para tentar enquadrar a mulher que não pede permissão e não espera aprovação de ninguém.
O pano de fundo desses julgamentos é sinistro. No Afeganistão, meninas estão proibidas de estudar depois dos 12 anos. Nos Estados Unidos, há influenciadores com audiências gigantes que pregam abertamente que o voto feminino foi um erro histórico. No Brasil, o discurso importado de que homens e mulheres precisam “voltar aos seus papéis” subiu nos palcos e palanques com força renovada.
Neste cenário, dizer para uma plateia de milhões que é “livre e feliz” é um ato de insubordinação. A vitória de Ana Paula é o triunfo de todas nós que nos escolhemos todos os dias. Não é um grito de guerra ou arrogância, mas a constatação de que a felicidade não é uma concessão alheia, disponível apenas em modelos de vida que cabem em caixinhas. É a resposta de quem se garante e se pertence por inteiro, apesar de todas as cobranças. É, por fim, a resposta definitiva para quem insiste que somos incompletas, amargas, exigentes demais, que já está na hora, que já passou da hora. O mundo que aprenda a lidar com mulheres livres porque não pretendemos devolver nossa liberdade.