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O jornalismo muda o mundo

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Da FOLHA

Por EDILAMAR GALVÃO

jornalismo muda o mundo. A frase pode soar ambiciosa num ambiente em que pressões políticas, econômicas e tecnológicas colocam a profissão em xeque. Mas, observando as últimas décadas, não se vê o esgotamento do jornalismo —e sim sua reconfiguração. Desde a chegada da internet comercial ao Brasil, em 1996, a produção e a circulação de informação se tornaram mais complexas, mais disputadas e, paradoxalmente, mais dependentes de práticas profissionais de apuração.

Houve adaptações difíceis. Esta Folha e O Estado de S. Paulo reduziram equipes, mas mantiveram relevância. A revista Veja sofreu um declínio mais acentuado, com queda de circulação e mudanças societárias. Paralelamente, grandes portais como UOL e G1 consolidaram estruturas sólidas, enquanto iniciativas independentes —Nexo, Jota, Sumaúma, Consultor Jurídico— ampliaram o ecossistema informativo.

Um diagnóstico importante está no estudo “News Tech: Modelos de Negócio e a Transformação do Jornalismo na Era Digital”, coordenado por Guilherme Fowler e apresentado no Insper em setembro deste ano, que mostra um setor em reorganização, não em colapso.

A ideia, muito difundida no início da internet, de que “qualquer um” estaria apto a produzir informação não se confirmou. “Qualquer um” pode produzir conteúdo; produzir informação jornalística —com método, critérios, verificação e responsabilidade— é outra coisa. Basta acompanhar os debates que inflamam as redes: muitos comentam fatos noticiados por reportagens.

Os exemplos históricos são numerosos. No governo Collor, a cobertura sobre irregularidades —somada à entrevista “Pedro Collor conta tudo”, publicada pela Veja em maio de 1992— impulsionou movimentos que resultariam no impeachment. Vieram depois o escândalo da compra de votos no governo FHC, o mensalão no governo Lula, a Operação Lava Jato, a cobertura dos atos golpistas de 8 de Janeiro, entre tantos outros. Em todos, o jornalismo profissional permitiu que o país compreendesse a gravidade dos fatos.

No exterior, casos decisivos marcaram a história recente. O Watergate (1972–74) levou à renúncia de Nixon após investigação do Washington Post. Em 1996, Jeffrey Wigand denunciou, no 60 Minutos, da rede norte americana CBS, práticas da indústria do tabaco que mudaram regulações e custaram bilhões às empresas. Em 2002, a equipe Spotlight, do Boston Globe, revelou o encobrimento sistemático de abusos sexuais na Igreja Católica, gerando repercussões mundiais.

No Brasil, em 2024, o STF reconheceu o ajuizamento massivo de ações contra jornalistas como forma de intimidação. No mesmo mês, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) divulgou o “Monitor de Assédio Judicial”, com 654 processos distribuídos em 84 casos de 2008 a 2024. O marco desse tipo de perseguição remonta ao caso Elvira Lobato, que enfrentou mais de cem ações simultâneas após sua reportagem “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, publicada em 2007, que revelava que uma das empresas da igreja estava registrada no paraíso fiscal da Ilha de Jersey.

Esses episódios —nacionais e internacionais— demonstram que o jornalismo permanece decisivo para a democracia. Essa vitalidade move o “Encontro Folha Faap: O Jornalismo Muda o Mundo”, que acontece nesta sexta-feira (28) e reúne Mônica BergamoBruno Paes MansoBasília RodriguesRenata Lo Prete e jovens talentos da profissão.

Como disse Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, em “5 lições em 100 anos de Folha“, aula magna proferida para o curso de jornalismo da Faap: “O risco é inerente à atividade. Quando se propõe a ser o vigia dos poderes constituídos (sejam eles políticos, econômicos e sociais), o repórter e o meio no qual publica seu conteúdo estão sob constante ataque, essa é uma consequência.”

O jornalismo seguirá enfrentando ameaças —faz parte de sua natureza. O que garante sua sobrevivência é reconhecer o valor dos seus princípios: investigar com rigor, tornar visível o que está oculto, propiciar o debate e o diálogo entre múltiplas vozes e ir aonde o público está. É assim, fazendo o que sempre fez e aprendendo continuamente novas formas de fazê-lo, que o jornalismo segue. E segue mudando o mundo.

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