
Da FOLHA
Por PEDRO ESTEVAM SERRANO
- Diante da conturbada conjuntura global, o fato de o país hoje nadar contra a maré é motivo de esperança
- Na contramão do nacionalismo e do belicismo, há a defesa do multilateralismo, da preservação ambiental e das instituições internacionais
A afirmação de que o Brasil é um país “na contramão do mundo” soa-nos, desde o berço, como uma lei newtoniana. Somos ensinados, com muito esmero, a aceitar o fato de que vivemos em um país que já deu errado.
Esse mito remonta à carta de Pero Vaz de Caminha, em que a “terra em que tudo dá” é contrastada com uma população supostamente atrasada e selvagem. O argumento da hipossuficiência do povo brasileiro sempre esteve presente para justificar as ditaduras que marcaram a história republicana do país, bem como os inúmeros processos de colonialismo que o “primeiro mundo” exerceu na África e na Ásia.
Em que pese o obscurantismo dos tempos de pandemia, que pareciam apenas confirmar o crônico estado de “atraso” brasileiro, hoje o Brasil vem sinalizando que não há leis naturais que determinem a história de um povo.
É consenso que a democracia está em crise em todo o mundo. Para além das jovens democracias da América Latina e do Leste Europeu, a crise democrática atinge também o mundo “desenvolvido”. Países como Estados Unidos, França e Alemanha vêm sofrendo com instabilidade institucional e com a ascensão de uma extrema direita truculenta que remete aos movimentos autoritários da primeira metade do século 20. Mas, enquanto o mundo assiste às imensas marchas anti-imigração em Londres e às manifestações de grupos neonazistas nos Estados Unidos, o Brasil tem seguido o caminho oposto.
A partir do novo desenho institucional inaugurado pela Constituição de 1988, aliado à atuação firme do Supremo Tribunal Federal, o Brasil foi um dos primeiros países a retomar a estabilidade democrática, fato recentemente reconhecido pela revista The Economist.
Além disso, em vez de lutar contra direitos, o país lotou as ruas no mês passado para se opor à PEC da Blindagem, à anistia e para defender a justiça social. A manifestação resultou na histórica aprovação, pela Câmara dos Deputados, em votação unânime, do projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e da tributação dos mais ricos, que agora segue para o Senado. Além disso, políticas sociais vêm sendo ampliadas, reduzindo a miséria e, como reconhecido pela ONU, o país saiu novamente do mapa da fome, além de registrar queda inédita nos níveis de desemprego.
A contramão que a nação vive em relação a esse momento tenso do mundo se acentua quando olhamos para os Estados Unidos, onde Donald Trump empurra o país em direção ao autoritarismo, perseguindo estudantes, silenciando jornalistas, atacando imigrantes e politizando as Forças Armadas. O Brasil, ao contrário, resistiu à tentativa de golpe e puniu seu ex-presidente, bem como a cúpula militar que o apoiava.
Na esfera internacional, esses avanços também são notáveis, o que ficou claro na Assembleia Geral da ONU, ocorrida no mês passado. Na contramão do nacionalismo e do belicismo dos EUA, de Israel e da Rússia, o Brasil saiu em defesa do multilateralismo, do fim do genocídio palestino, da preservação ambiental e das instituições internacionais.
É evidente que os desafios permanecem. Parte significativa do Congresso Nacional segue encastelada e distante dos reais interesses da população. O que se observa é a atuação de grupos parlamentares famintos pelas gordas parcelas do Orçamento público, além de forças radicalizadas que trabalham cotidianamente contra a democracia, a soberania e a superação das desigualdades sociais.
Mas, diante da conjuntura global, o fato de o Brasil caminhar contra a maré é motivo de esperança, não de vergonha. A contramão, desta vez, não é um desvio, mas sinal de potência democrática, vitalidade e cidadania.