
Do ESTADÃO
EDITORIAL
O bloco acordou e busca sua ‘independência estratégica’. O desafio é como. A curto prazo, sacrifícios serão inevitáveis. Mas é a própria sobrevivência da Europa que está em jogo
A deterioração da participação dos EUA na aliança pró-Ucrânia contra a invasão russa foi rápida. Começou com a conversa telefônica entre o presidente americano, Donald Trump, e o russo, Vladimir Putin. Em cerca de duas semanas, logo após o encontro desastroso entre Trump e o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, na Casa Branca, os EUA suspenderam o envio de recursos, armas e dados de inteligência à Ucrânia. Assim como a agressão russa provocou a expansão da Otan, agregando Suécia e Finlândia, a traição americana galvanizou a união dos europeus. O choque de realidade despertou a Europa para a necessidade de incrementar seu sistema de defesa para garantir sua existência e independência.
Numa cúpula em Bruxelas na quinta-feira passada, os líderes europeus sacramentaram essa inflexão. Agora vem a parte difícil: como sustentá-la. Foi como se cada país tivesse contribuído com o que tem de melhor para a cúpula.
A França trouxe palavras. O discurso à população francesa do presidente Emmanuel Macron às vésperas da reunião foi um instante de clareza moral em dias de incerteza. Macron declarou que a reaproximação entre EUA e Rússia precipita a Europa numa “nova era”; que a agressividade russa não conhece fronteiras; que permanecer como espectador seria “loucura”; que a paz não passa pelo abandono da Ucrânia nem pode ser um decreto russo e exigirá o destacamento de forças europeias; e que os gastos com defesa devem aumentar o mais rápido possível. Mais importante, Macron aludiu à possibilidade de oferecer os arsenais nucleares franceses como um “guarda-chuva” para a Europa.
O Reino Unido trouxe pragmatismo. Entre a conversa de Trump com Putin e o bate-boca com Zelenski, o premiê Keir Starmer fez uma visita produtiva a Washington. Logo depois, reuniu líderes europeus em Londres num gesto de apoio a Zelenski. Hoje, ele é o líder europeu em melhores condições de promover uma reaproximação entre Trump e Zelenski e mediar conversas entre Washington e Bruxelas para construir garantias de segurança críveis num eventual cessar-fogo.
Coreografias diplomáticas e declarações grandiosas sobre a “independência estratégica” não são exatamente novidade. A diferença agora é que a Europa parece levar a sério as exigências práticas, a começar por como financiar o rearmamento. A Alemanha contribuiu com sua industriosidade. Dias antes da cúpula, o provável próximo premiê, Friedrich Merz, do partido conservador da democracia cristã, concertou com os social-democratas uma votação para aprovar uma histórica isenção no teto da dívida para financiar investimentos militares.
Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou até 800 bilhões de euros em gastos com defesa para os países do bloco, em parte através de redirecionamento de subsídios para obras públicas, mas também isentando gastos nacionais em defesa dos limites do bloco sobre as dívidas. Tudo isso sugere uma mudança há muito adiada de prioridades. Mas satisfazê-las exigirá que os líderes europeus conduzam seus povos a escolhas difíceis.
Especialistas ouvidos pela revista The Economist estimam que para se defender sem os EUA, a Europa, que atualmente gasta por ano 1,8% do PIB com defesa, precisaria gastar no curto prazo 3,5%, e no médio prazo entre 4% e 5%. Isso sem contar o apoio à Ucrânia, que, para suprir a ausência dos EUA, precisaria subir dos atuais 0,2% do PIB para 0,4%.
Os impostos já são altos. O relaxamento fiscal é plenamente justificável pela emergência. Mas muitos países já estão bastante endividados e há limites para a confiança dos credores. A verdade é que os europeus precisarão cortar na carne. Seu Estado de bem-estar social é o mais generoso do mundo, mas ele foi construído num momento em que a Europa tinha uma população jovem, não competia com gigantes como a China e a Índia e estava segura sob as armas dos EUA. Esse dividendo da paz se foi. Os gastos sociais precisariam ser revistos nem que fosse por uma razão de produtividade e eficiência; agora, precisarão ser cortados por uma questão de sobrevivência.