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Sé sitiada

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EDITORIAL DA FOLHA

Violência no centro de São Paulo resulta da falta de políticas de longo prazo

Uma praça envolta por grades, em contradição com a ideia de espaço aberto ao convívio e descanso dos cidadãos, torna-se um símbolo do fracasso do poder público. Ainda mais se localizada no coração da metrópole paulistana, com o entorno da igreja da Sé transformado em território da violência.

A insegurança em volta do marco zero de São Paulo tem longa história. Não faltam estatísticas recentes: nos dois primeiros meses deste ano, a região da Sé apresentou a maior quantidade de roubos notificados no bimestre desde 2002.

Foram 956 ocorrências. A cada dia, registram-se 16 casos em média. Contudo é lícito supor muitos mais, que as vítimas não denunciam à polícia, na certeza de que a providência resultará em nada.

O fiasco é obra de várias administrações de diferentes matizes ideológicos. A perda progressiva de controle pela prefeitura, responsável por zeladoria e fiscalização de ambulantes, e pelo governo estadual, ao qual compete garantir a segurança pública, fica patente no funcionamento de uma “feira do rolo” nas imediações.

Os ladrões não só têm liberdade para agir como ainda contam com receptadores na mesma área. A instalação de grades móveis, iniciativa da subprefeitura da Sé, facilita a manutenção dos canteiros, mas não importunará os gatunos.

A praça é o epicentro da anomia que se propaga pela região. Na rua Glicério, meliantes arrebentam vidros de carros e arrancam telefones das mãos de motoristas e passageiros. A via tem cerca de mil metros de comprimento, não seria tão custoso policiá-la melhor.

Um pouco mais distante, nos Campos Elíseos, o comércio voltado a motociclistas viu o movimento cair 70% quando uma “minicracolândia” se instalou na vizinhança.

Não há soluções fáceis, já se comprovou, para o complexo fenômeno criminal e de saúde pública que tomou conta do centro paulistano.

Governos se sucedem, no Estado e no município, sem que moradores, turistas, visitantes e trabalhadores da região tenham paz para ir e vir. Passou da hora de abandonar convicções ideológicas que opõem ação social a repressão policial.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) precisam formatar um plano integrado —com horizontes mais amplos que os de seus mandatos— que mobilize zeladoria, polícias, assistência social e saúde pública para retomar o centro e devolvê-lo à população.

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