Do MÍDIA SEM MÉDIA
Por VLADIR LEMOS
http://www.midiasemmedia.com.br/colunistas/vladirlemos/6039-Cada-sua.html
Não sou velho, mas sou do tempo em o que repórter que cobria um clube de futebol tinha o direito de acompanhar os treinos da beirada do gramado, podia escolher o jogador que queria ouvir e, muitas vezes, fazia isso dentro do vestiário.
Naqueles dias, quando os leitores abriam o jornal no dia seguinte, ou ligavam a TV, ou procuravam a companhia do rádio, encontravam o universo do futebol captado de maneira mais rica, fruto de possibilidades que não existem mais.
Mesmo sem se dar conta, partilhavam de uma liberdade que silenciosamente foi acabando. Os tempos mudam, os veículos de comunicação se multiplicam, quem não é capaz de entender essa realidade?
Mas não se trata apenas disso. Pouco a pouco os homens que comandam o futebol foram nos impondo regras para exercer o ofício, e nesse processo de transformação muita gente mudou de lado.
O pior de tudo é que essa transformação se deu sem o mínimo de contestação por parte da imprensa, e não pode haver sintoma pior para a saúde da imprensa do que a falta de contestação.
Já o espaço que só pertence aos jornalistas está longe de receber tamanha proteção. Dias atrás, ao ler uma reportagem intitulada ” Luxa quer a imprensa jogando junto”, percebi que não se tratava apenas de uma impressão.
A matéria falava sobre as andanças do treinador santista pelas redações da baixada. De cara fiquei tentando imaginar o que alguém que ocupa essa posição poderia dizer a um monte de jornalistas ao entrar numa editoria de esportes.
Tudo bem, aceitou um convite cordial. Sem problemas.
Mas o desdobramento foi previsível.
Dias depois, o comandante santista usaria o seu blog para atacar jornalistas que teriam se sentido indignados com a visita. Ora, prestigiados é que não poderiam ter se sentido. A imprensa que não se incomoda é que preocupa.
Estranho nessa história toda é notar, no geral, visões e atitudes tão diferentes na hora de tratar o espaço de cada um. Se já não podemos escolher o melhor ângulo para fazer as imagens de um treino, e muitas vezes nem mesmo acompanhá-los, se algumas vezes somos obrigados a ficar na porta esperando a permissão para entrar, porque deveríamos aceitar, sem questionar, essa proximidade repentina justamente dentro do nosso vestiário?
Não há exagero nenhum em dizer que hoje em dia, se um jornalista percebe uma história interessante e diferente para ser contada sobre determinado jogador, precisa cruzar os dedos para que ele seja o escolhido para falar naquele dia, porque de outro modo terá que jogar a pauta no lixo, ou torcer para que ela ainda tenha validade num futuro breve.
E mais, o caminho da imprensa esportiva está marcado, cada vez mais, por uma incomoda bifurcação que nos separa em duas categorias, a dos que estão, e a dos que não estão à serviço de quem tem os direitos de transmissão.
Enquanto o direito à informação, que deveria estar acima de tudo isso, fica cada vez mais fora do jogo. Perdem todos, porque diante dessa realidade você muda de canal, de jornal, de rádio, e encontra praticamente as mesmas declarações. E nós, jornalistas, porque temos que se virar com essa liberdade distorcida.