Por ROBERTO ALVARÉZ FERNÁNDEZ
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Torcedores vão ao treinamento do Fluminense e agridem o atleta Diguinho por volta do fim de Maio. O fato ocorreu numa tarde, hora de trabalho. Teve tiro pro alto e tudo.
Na semifinal da Copa do Brasil entre Corinthians e Vasco da Gama, acontece um confronto entre torcedores, até agora muito mal explicado, com uma ocorrência fatal, diversos feridos e um ônibus incendiado. Sobram justificativas, emboscada, erro da PMESP (Polícia Militar), coitadinhos de nós e outras bobagens sem tamanho.
Torcedores do Palmeiras, no aeroporto de Curitiba a 400Km. de São Paulo, “recebem” a delegação palmeirense com insultos e ameaças. Além disso, muros do Palestra Itália amanheceram pichados danificando patrimônio do clube que estes indivíduos dizem torcer e “defender”.
A torcida independente do São Paulo F.C. (aí sim com letra maiúscula) pediu reunião com os atletas e foi atendida pela diretoria do clube; sobram notas dizendo que a reunião foi cordial, pacífica e assim por diante, como se fosse um fato inusitado. Quando da eliminação do São Paulo F.C. pelo Cruzeiro e consequente demissão de Muricy Ramalho, de tantas conquistas importantes, pichações no CT do clube…pelos indivíduos que dizem torcer pelo clube, quem pagou a tinta e a mão-de-obra?
Estes exemplos são poucos, mas recentes, e mostram que as torcidas organizadas parecem bem pouco dispostas a abandonar sua linguagem de violência, extorsão e confronto, coisa de quem não tem um projeto de vida de algum valor.
Matematicamente a relação das torcidas organizadas com o futebol se assemelha a um processo de infecção que termina com a vida do hospedeiro. Só que o processo é lento.
As autoridades, juntam-se aí clubes e federações, tratam a questão como uma questão de segurança pública, não é.
Estas mesmas entidades atribuem os problemas à questões sociais, econômicas dando um salvo conduto à conduta inadequada quase como uma “política compensatória” pelo fato dessas pessoas terem uma “vida miserável”, não é. Há mecanismos e políticas para estudar, se qualificar, trabalhar e progredir, o problema é que isso exige sacrifício e dá trabalho; seguir a vida reclamando do destino e odiando quem trabalha e produz é mais fácil.
Eu mesmo não venho da elite econômica, mas batalhei meu espaço e cresci, estudei em escola pública até o final do segundo grau, e tenho que continuar me mexendo pois há sim uma nova geração chegando com garra e vontade ao mercado de trabalho.
Esse papinho de “criado na rua”, de “correria”, de “excluído” não cola comigo, isso é papo para seduzir sociólogo de buteco. O mundo ficou menor e plano, temos que nos mexer para obter uma posição competitiva na vida e, por consequência botar o país pra frente.
Voltando ao futebol, foi-se o tempo em que as torcidas organizadas eram inocentes grupos de idealistas torcedores fanáticos por um clube, seja ele qual for, que se organizavam para acompanhar seu time do coração. Hoje falamos de organizações com CNPJ, quadros associativos robustos, sede própria, enfim um grande negócio.
Négocio este que, como qualquer organização comercial, quer se perpetuar e crescer. Para crescer é necessário atender às necessidades do mercado; se o torcedor jovem, de pouca renda ainda, não tem recursos para frequentar o seu clube do coração para ver atendida sua necessidade de pertencimento a torcida organizada tem ofertas de baixo custo para a associação. Se este torcedor não consegue comprar produtos licenciados do clube, compra da torcida organizada, mais baratos.
Sob qualquer ameaça ao seu negócio, que deve ser até bem lucrativo, a torcida organizada encontra terreno fértil para a intimidação e a extorsão dada a fragilidade moral e administrativa da maioria dos dirigentes do futebol brasileiro. A mediocridade administrativa e de resultados é compensada com apoio político, mainfesto em campo por meio do apoio ao time por exemplo, a estes dirigentes, claro que isso tem um preço. Além do mais, torcedor organizado vota, o que causa pavor nos políticos e os impede de tomar uma posição de enfrentamento para tratar a questão.
Curiosamente, esses grupos são recebidos pelas autoridades, definem onde vão se acomodar nos estádios, que caminho farão para chegar ao estádio e o fazem com escolta de Chefes de Estado enquanto o cidadão pagador de impostos é assaltado nos cruzamentos da cidade.
E mesmo assim saem confrontos, mortes. Alguém tem culpa ? Sim, todos os que aceitam a existência destes grupos e a relação com os clubes, culpa se não legal, ao menos moral.
Esses grupos fazem uso das marcas e símbolos dos clubes sem o menor constrangimento e são até agraciados com o título de “clientes preferenciais” por “profisisonais” de marketing de alguns clubes, justamente eles, que deveriam ser os guardiães ferozes de seu maior patrimônio, suas marcas.
Por que não exigir que eles paguem pelo uso das marcas como qualquer fabricante de camisetas, toalhas, canecas, canetas, etc.? Não seria uma forma inteligente de asfixiar economicamente tais grupos? Apenas um exemplo de fora da questão : a melhor forma de combater o crime é torná-lo inviável economicamente e há sim um crime aí, o de pirataria, pra dizer o mínimo.
Números de empresa grande de material esportivo mostram que após um conflito entre torcidas de grandes proporções e de grande notoriedade há uma queda nas vendas de 20% de material esportivo, sobretudo camisas, em três ou quatro semanas após o conflito, a torcida organizada paga essa conta ? Certamente que não, mas quer “jogador”.
E quanto mais ela aparece nestes confrontos e “cobranças”, mais “força” ela demonstra, mais seu negócio prospera. É a lógica extorsiva do crime.
Estranha essa lógica, confesso que não entendo.
Queiram ou não temos uma lei no Brasil, o Estatuto do Torcedor, que dá o direito ao torcedor de ocupar seu assento marcado no ingresso. Coisa de lei que “não pega”; pois os grupos organizados são, junto da pobreza administrativa e operacional dos clubes e da inoperância da justiça, os principais responsáveis por isso. Experimente comprar um lugar dentro da área “reservada” aos “clientes preferenciais” e querer ocupá-lo, certamente não irá conseguir e ainda correrá riscos.
É por essas e outras que esse ressurgimento, com alguma força, de eventos gerados pelos grupos organizados precisa ser entendido e atacado com vigor, inteligência e sem viés político.
A civilização da relação futebol/torcidas organizadas é um gigantesco obstáculo para que os estádios voltem a ser ocupados por pessoas que buscam apenas pertencer a algo maior e que queira se divertir com isso, independente de condição sócio-econômica, de nível educacional e outras variáveis de segmentação.
A cada confronto damos um passo atrás no posicionamento do produto futebol, e quanto pior o posicionamento mais complicado é tornar economicamente interessante prover estruturas e processos de serviços de qualidade para o torcedor.
As torcidas organizadas e os clubes, ao menos seus dirigentes, coniventes condenam a cada dia que passa o futebol à mediocridade, em relação à outras formas de entretenimento, não é coincidência a pouca ocupação histórica dos estádios brasileiros, pode não ser a única razão, e não é, mas contribui muito sendo a principal causa de abandono da ida aos estádios nos últimos vinte anos. (Dossiê Esporte, TNS Sport, IBOPE)
Apesar de gostar muito de futebol, vou ao cinema.