Por ROQUE CITADINI
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A mídia internacional e local noticiou estupefata que a Câmara dos Deputados norte-americana rejeitou o pacote de ajuda aos bancos de US$700 bilhões que o Governo Bush enviara ao Congresso.
Todos estavam perplexos, desde o New York Times à Folha de S.Paulo, do Estadão ao Washington Post, da Globo à CNN. Foi uma tarde de lamentações, choro e lágrimas.
Os comentaristas econômicos das redes de televisão brasileiras, todos, todos mesmo, que defenderam e elogiaram o pacote de ajuda aos bancos de Bush, não sabiam o que falar.
Nossos economistas locais estavam entre o choro e a raiva. Todos defendiam – e defendem – o pacote de ajuda aos bancos. Alguns passaram até a atacar os deputados norte-americanos, como se estes constituíssem um bando de loucos, querendo botar fogo na economia mundial.
O pior, muito pior, bem pior mesmo, é que nenhum grande jornal, rede de TV, cronista, comentarista ou economista havia previsto que o pacote poderia ser rejeitado pelo Congresso norte-americano. Todos acreditavam nas lorotas que divulgavam, a principal delas era que o pacote não seria para ajudar bancos, mas para salvar os cidadãos que compraram casas ou eram correntistas.
O que ocorreu ontem foi uma derrota do Presidente Bush. Normal. Comum e corriqueira no universo da política em qualquer parte do mundo. Mas o que aconteceu, mesmo, foi uma total derrota do baronato da mídia, que informou de forma incorreta a população toda, engajando-se como partícipe do projeto de socorro bancário, esquecendo-se da principal missão do jornalista, seja em mídia impressa, radiofônica, televisiva ou internauta, que é informar corretamente os fatos à opinião pública.
Quem porventura desejasse conhecer o que houve, bastaria dar uma passada pelos milhares de blogues norte-americanos de economia e lá verificar que as informações dadas pelos jornalões não correspondiam ao que se passava verdadeiramente na América. Nos blogues, pipocavam críticas de todo tipo e de todos os locais dos EUA: o discurso era o inverso do que o baronato passava pela grande mídia, que dava como favas contadas a aprovação do socorro.
Quem passasse pelos blogues, veria que o povo americano estava indignado, afinando-se com a maioria de parlamentares que rejeitou o projeto e concluindo que o pacote era sim um desavergonhado uso de dinheiro para salvar instituições financeiras que fizeram fortunas nas últimas décadas.
Foi essa indignação, captada pelos blogues, que circulou pela América levando tão grande número de congressistas que, apesar de todo o apoio da grande mídia, a negar anuência ao plano de salvar bancos com dinheiro dos cidadãos, em meio a um capitalismo que, quando ganha premia os ricos e ao perder sacrifica o povo.
Infelizmente o blá-blá-blá da grande mídia continua, e é até possível que se chegue a um outro pacote menos escandaloso que o primeiro, mas neste episódio todos já temos os grandes derrotados: os barões da imprensa, com seus jornalistas e comentaristas.
E devemos abrir os olhos para um novo fenômeno que nasce neste mundo globalizado, a Internet, que com a sua interação por meio de sítios e blogues, já não permite mais a antiga manipulação, mesmo quando está engajada na defesa de uma causa comum.