Um lugar no Olimpo
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Sócrates
Pelé e Maradona adoram alfinetar um ao outro. Creio que deva ser interessante para os dois discutir quem foi o melhor jogador de todos os tempos. Mas é tão produtivo quanto discutir o sexo dos anjos. História e lembranças passadas se fundem e são importantes, mas jamais permitem recuperar a juventude. De qualquer forma, os dois acima citados agem como artistas da ideologia contemporânea, que vendem a todo custo o sucesso popular como passaporte ao paraíso terreno. Ainda que seja fruto de uma estranha alquimia.
Esta semana deleitei-me com algumas declarações de Maradona em Cannes, quando da apresentação do documentário sobre sua vida e suas artes. E muitas foram dirigidas exatamente a Pelé, reforçando a minha tese de que nesta batalha todo mundo vence, ao menos em determinados detalhes.
Uma, em particular, é uma pérola. Se, é claro, a transcrição dos meios de comunicação for correspondente à verdade (algo raro nos dias de hoje). De qualquer forma, vale o registro: “Se eu não tivesse feito as besteiras que fiz na vida, Pelé não teria chegado nem a segundo melhor jogador do mundo”.
Genial! Mas me pergunto: quem seria o segundo, se as tais besteiras, geradas por sua autocrítica, não tivessem ocorrido? O primeiro, dá para imaginar quem seria, não é? Mas quem é o outro? Depois de muito pensar, cheguei à estonteante e difícil conclusão: Maradona, sem falsa modéstia, talvez tenha sugerido que ele próprio deveria ocupar as duas principais cadeiras desse Olimpo futebolístico, caso fosse mais suportável para a elite conservadora deste mundão de Deus. Não sobraria a Pelé nem um pedaço de trono. Nem de bronze.
Outra, ótima, foi lançada ao ar pelo diretor do documentário: “Ele (Maradona) é um ser dionisíaco (incluindo-se na definição). O caos faz parte de nossas vidas e energias, mais do que o lado racional. Somos parte de um determinado mundo antigo”. Hum… muito boa filosofia, meu irmão.
Não estou aqui fazendo apologia do Pelé, a quem admiro de verdade, ainda que tenha muitas críticas a fazer sobre o seu comportamento público – se é que tenho autorização para tanto. Pelo contrário, acho esse tipo de desafio uma grande bobagem, ainda que muitos achem que para possuir algum tipo de poder devam se utilizar de todas as estratégias possíveis. De qualquer forma, senti uma tremenda nostalgia de um texto que escrevi para o Rei, aqui mesmo, há quase sete anos, e que gostaria de recordar. Ele, o texto, intitulou-se: “Pelé sempre me fez chorar”. Eis algumas dessas considerações.
“Pelé, e quando do milésimo gol? Puxa, que legal. Você preocupado em falar pelas criancinhas do nosso país. Fantástico! Pena que ninguém, nem o governo do qual você fez parte, realizou alguma coisa por elas. Nem você pode fazer. Que pena! Talvez tivéssemos um Brasil melhor. Na primeira partida que fiz contra o Santos, chorei como menino – menino grande, é verdade.
Enfrentar o time que povoou minha fantasia de criança foi um acontecimento. Não vencemos e só por isso chorei, ainda no gramado. Raiva, ódio, frustração, por não ter podido vencer, mesmo sem você. Era nossa grande chance. Não deu!
Agustín Mario Cejas, o maior goleiro que já vi jogar, não deixou. Eu, que esperei uma vida para te encontrar, fiquei a te esperar. Puxa, Pelé, era ali que tinhas de estar. Nesse mesmo ano você também faltou à Copa da Alemanha. Disseram-me que era por causa de uma pendência tributária. Sem anistia, você não jogaria. Não acreditei. Assim como continuo não acreditando nessa sua ambição desmedida.
Em 1962, na primeira Copa que pude acompanhar, pelo rádio, Amarildo estava no seu lugar. Ainda bem que o Garrincha fez mais do que deveria para que pudéssemos vencer. Isso sem falar do inacreditável espírito de luta de Zito, da frieza de Didi e da força de Vavá. Quem sabe seria mais fácil com você. Eu sei que não dava para estar nesses jogos, porém, era ali que você nunca deveria faltar. No gramado, você foi um rei. Seus súditos, como eu, sabem que ninguém portou o cetro com tanta dignidade, mas não é possível que não tenhas alguma filosofia em que se apoiar, alguma ideologia”.
E é aí, na verdade, que Maradona insiste em se intitular o melhor, conscientemente ou não.
