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Andréia Sadi não tem um Louro José

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Da FOLHA

Por BECKY S. KORICH

No jornalismo, a máxima “errar é humano” deixa de servir quando uma inverdade chega organizada, convincente e esquematizada. Porque, nesse ponto, o erro já pode não ser só erro.

O caso do PowerPoint de Andréia Sadi usado no programa Estúdio i, da GloboNews, para tentar explicar os envolvidos no caso Master, não foi só uma gafe de estúdio, dessas que se resolvem com um pedido de desculpas e um “seguimos”. Não foi um erro solitário perdido no improviso.

Pode ter começado pelo estagiário, mas, suponho, passou por revisão antes de ir ao ar. E foi discutido, ao vivo, com outros participantes do programa que não questionaram a “arte”.

Sobrou para Sadi encarar a câmera e fazer o mea culpa ao vivo, um tanto desajeitado, ao explicar que o conteúdo estava “errado e incompleto”.

Se existisse no Código Penal a figura da “difamação culposa” –aquela sem intenção, mas com boa dose de negligência–, talvez o célebre PowerPoint de Sadi rendesse mais do que memes. Renderia jurisprudência.

Apesar da gravidade do caso, há algo reconfortante quando o jornalismo ao vivo falha, não por sadismo, mas porque nos lembra que ele nunca foi tão sólido quanto gosta de parecer ou quanto realmente gostaria de ser.

O erro humaniza, mas também expõe a fragilidade da autoridade jornalística. Quanto mais o jornalismo tenta parecer infalível, mais constrangedor fica quando falha. O teleprompter não erra, apenas atesta até onde vai a obediência de quem lê.

A retratação tornou-se um capítulo à parte. De um lado, os caçadores de má-fé, para quem o erro é prova de manipulação deliberada da jornalista e da emissora. Do outro, os defensores automáticos, para quem qualquer crítica vira perseguição ideológica. No meio dessa disputa inútil, perdeu-se a distinção entre falha, falha grave e fraude e o pedido de desculpas passou a ser explorado pelo tribunal digital.

O episódio não é um acidente isolado, faz parte de uma tradição antiga de gafes que desmontam a liturgia jornalística. No Brasil há um verdadeiro acervo de pequenos desastres do jornalismo ao vivo.

Em 1994, o então ministro da Fazenda Rubens Ricupero explicou ao país, sem saber que explicava, como funcionava a comunicação de governo: “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Certíssimo. Seu único erro foi o microfone aberto.

Boris Casoy, ao encerrar uma daquelas matérias edificantes para terminar o jornal com alguma esperança, reagiu a uma reportagem com garis desejando feliz Ano-Novo. O comentário: “que merda… dois lixeiros desejando felicidades”. William Waack, também com microfone aberto, fez um comentário racista antes de entrar no ar. Não foi exatamente uma gafe técnica. O microfone apenas amplificou uma voz interna.

Houve casos divertidos, como a icônica crise de riso de Lillian Witte Fibe, ao noticiar a prisão de uma idosa de 81 anos por tráfico de ecstasy –que teria confundido com comprimidos de Viagra.

Ana Maria Braga já trocou Simone e Simaria por Maiara e Maraisa, chamou Ariano Suassuna de Adriano, recebeu Paulo Betti com um “bem-vindo José Mayer”, reinventou expressões infelizes como “inveja branca”. Mas ela tinha o Louro José para corrigir seus deslizes.

Andréia Sadi não está em um programa de entretenimento.

E, em jornalismo, uma verdade alterada raramente fica onde começou.

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