
De O GLOBO
Por VLADIMIR VILLEGAS
Jornalista lembra traumas políticos do país e relata pouco tráfego de veículos e filas em supermercados e farmácias de Caracas
Anteontem foi um domingo particularmente significativo por três razões. Foi o primeiro domingo de 2026, o primeiro domingo após a ação militar dos EUA que culminou na destituição de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e o primeiro domingo de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela.
Foi um dia em que os cidadãos se dedicaram a encontrar uma padaria aberta, um posto de gasolina para abastecer, uma farmácia “por precaução”. Em suma, tentando gerar a estabilidade que vem com ter algo para comer e cozinhar, bem como os remédios que não podem faltar.
Após tanto tempo de tensão política, a população não abandonou o desejo por mudanças, mas a prioridade passou a ser a estabilidade que lhe permita viver a vida cotidiana em um país que sofreu um bombardeio do Exército da maior potência mundial.
Superar isso não é tarefa fácil, porque pela primeira vez vimos em nosso país o que vimos na Líbia ou no Iraque pela TV ou por um celular. Um ditado muito venezuelano me vem à mente: “Não é a mesma coisa chamar o diabo e vê-lo chegar”. Assim, encontrar um supermercado aberto é como encontrar um vislumbre de normalidade, uma palavra estigmatizada pelo extremismo, mas que hoje tem um significado diferente.
Durante um passeio pela cidade, observamos pouco tráfego de veículos, praticamente nenhum transporte público e filas em supermercados e até farmácias. Pouquíssimos restaurantes estavam abertos. Uma cena mais típica de um 1º de janeiro do que de um domingo antes da volta à rotina de trabalho.
Retração Urbana
Se há um lugar onde todos os setores sociais convergem é o Parque del Este, localizado no município de Sucre, no estado de Miranda. Bem, ontem estava fechado… Sem corredores matinais ou atletas, nem as famílias da classe trabalhadora que todos os fins de semana levam seus filhos para brincar, correr ou passear por seus espaços verdes.
Essa atmosfera de retraimento urbano pós-traumático é inconfundível. Vivenciamos isso em dias de choque, como o “Caracazo” de 1989, em tempos de saques em protesto contra as políticas econômicas de Carlos Andrés Pérez II, ou em fevereiro e novembro de 1992, meses em que ocorreram levantes militares, o primeiro deles liderado por Hugo Chávez Frías, que venceu as eleições em 1998 e governou até 2013, ano em que morreu de câncer, mas não sem antes deixar Nicolás Maduro Moros como seu herdeiro político, que também passou seu primeiro domingo em uma cela de prisão nos EUA ontem.
O país experimentou o mesmo sentimento em abril de 2002, quando Chávez foi deposto e preso por 48 horas até seu milagroso retorno ao poder. Em outras palavras, nesses 25 anos de chavismo, primeiro com Chávez e depois com Maduro, os traumas foram uma presença constante, juntamente com a correspondente ansiedade de ter a geladeira cheia e respirar estabilidade.
Hoje, Delcy Rodríguez lidera o terceiro governo chavista, enfrentando desafios políticos e econômicos significativos. Nestas primeiras horas, devemos proceder com cautela e abordar lentamente o novo cenário, como alguém que busca um café ou padaria abertos para aliviar a ansiedade, ou um supermercado para o familiar “por precaução”.
É prematuro falar em normalidade, especialmente após um ataque armado por uma potência estrangeira. Mas há sinais incipientes de um retorno à vida cotidiana.
Por meio de líderes empresariais, soubemos que mensagens estão sendo preparadas para incentivar a reabertura dos negócios. A retomada dos voos domésticos já foi anunciada . Da mesma forma, a restrição aos voos para o Caribe foi suspensa.
O país está despertando para uma nova era repleta de incertezas, e a estabilidade é necessária para avançar e alcançar os grandes desafios da recuperação econômica, da estabilidade monetária, dos salários e de um nível mínimo de convivência democrática. Tudo isso também é exigido pelo governo de Delcy, a primeira mulher a assumir formalmente a Presidência, ainda que interinamente. Para alguns, é mais do mesmo, uma continuação do chavismo-madurismo. Para outros, é uma oportunidade para uma grande mudança.
Tempo Curto
Em grande medida, depende de como ela conduzirá o país por uma estrada traiçoeira e administrará os significativos desequilíbrios que precisa enfrentar, tanto dentro quanto fora do chavismo, e diante de um Donald Trump que já demonstrou do que é capaz quando sua paciência se esgota. Ela sabe que o tempo é curto para enviar sinais ao país e ao mundo, e que enfrenta uma complexa corrida de obstáculos. O combustível para resistir é a estabilidade. E isso não se compra; constrói-se com habilidade e clareza de propósito.
*Vladimir Villegas é jornalista e ex-embaixador da Venezuela no Brasil (2002-2004).