
Da FOLHA
Por RUY CASTRO
- Seu domínio do português é surpreendente, mas o futebol fala outra língua
- O que ele entenderá por banheira, catimba, fominha, ladrão, pipoqueiro ou tapetão?
Carlo Ancelotti, 66 anos, italiano, treinador da seleção brasileira, está falando português muito bem. Superprofissional, acha de sua obrigação aprender a se comunicar com a equipe que veio treinar e com o povo que o acolheu. E faz isso há tanto tempo que domina também espanhol, francês, inglês e alemão, outras línguas de sua vitoriosa carreira. Bem diferente do rústico Abel Ferreira, que, há anos no Brasil, ainda espuma ao falar “equipa” (equipe), “época” (temporada), “primeira parte” (primeiro tempo) e jogador “fresco” (descansado). Não se passa pelo jargão do colonizado.
Ancelotti parece fluente nas firulas da comunicação tática, técnica, física, operacional e administrativa. Mas como estará sua relação com os torcedores que encontra fora das dependências do trabalho e falam com ele? O que entenderá quando um deles se referir à bola que bateu onde a coruja dorme —como vai saber que é a intersecção da trave com o travessão? E se um deles lhe disser que o Brasil tem de se cuidar contra as zebras no Mundial? E como vai saber o que é cabeça de bagre, caçar borboleta, cama de gato, carrapato, cavalo paraguaio, drible da vaca, dar um peixinho, engolir um frango, jogador bichado e outras estranhas relações do futebol com o mundo animal?
Já saberá o que é açougueiro, armandinho, balão, banheira, bicicleta, caneta, carrinho, cartola, catimba, chocolate, chuveirinho, esticão, ferrolho, fominha, ladrão, pipoqueiro, tapetão, treta, trivela? E arquibaldo, geraldino e macário, imortais criações de Washington Rodrigues, o Apolinho? E cai-cai, carregador de piano, folha-seca, gol de placa, lei do ex, linha burra, maria-chuteira, mão de alface, na gaveta, nas nuvens, pé murcho, perna de pau, um-dois, zona do agrião e quem não faz leva?
E abrir o bico, amarelar, cavar uma falta, comer a bola, dar de bandeja, dar um lençol, devolver quadrada, entortar, fazer cera, ganhar o bicho, isolar e partir para o abraço?
Não duvido. Ancelotti logo vai aprender tudo isso. Futebol também se joga com a boca.