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Como seria se Jesus nascesse em 2025?

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Da FOLHA

Por VALDINEI FERREIRA

Se Jesus nascesse em 2025, no lugar dos três reis magos teríamos um cientista vindo do Ártico, um indígena saído da floresta amazônica e um jornalista de Gaza.

O cientista, em vez de ouro, presentearia o recém-nascido com uma garrafa contendo água do degelo do polo Norte, simbolizando a crise climática. O indígena, em vez de incenso, traria uma caixa com cinzas de queimadas, representando a destruição ambiental. O jornalista, em vez de mirra, faria um relato amargo, noticiando que a vida do povo palestino é mais excruciante hoje que sob a dominação romana.

Os relatos sobre o nascimento de Jesus estão entre os últimos escritos do Novo Testamento. Primeiro foram registradas as memórias e reflexões teológicas em torno da morte e ressurreição, depois os ensinos e, por último, foram compostos os textos de Mateus e Lucas sobre o nascimento de Jesus.

Leitores modernos tendem a ler esses relatos como reportagens históricas, o que é um erro. Os detalhes que cercam o nascimento de Jesus não são históricos no sentido moderno do termo, tais como reportagens jornalísticas ou a historiografia acadêmica.

Todavia, não se apresse o leitor em concluir que as narrativas sobre o nascimento de Jesus não são verdadeiras. Esse é um erro cometido por aqueles que olham para a religião como “ópio do povo”. Fatos reais são a matéria-prima dos relatos sobre o nascimento de Jesus, porém escritos valendo-se da técnica do gênero literário judaico de interpretação bíblica do midraxe hagádico.

Os autores de midraxesque escreveram sobre o nascimento de Jesus, escolheram detalhes literários para “pintar o quadro”, assim como os pintores escolhem suas tintas, proporções, sombras etc. O objetivo dos escritores vai muito além da historiografia científica, pois sua intenção é a comunicação de verdades recebidas pela fé.

Usando a técnica literária dos midraxes, como seria a composição de detalhes teológicos se Jesus nascesse entre nós, em pleno 25 de dezembro de 2025? Já vimos quem seriam os reis magos e quais seriam os presentes. Porém, quais mulheres entrariam para a genealogia de Cristo? Que grupo social ocuparia o lugar dos pastores? Como seria pintado o infanticídio decretado por Herodes?

Nos lugares de Tamar, Raabe, Bate-Seba estariam os nomes das vítimas de crimes de feminicídio. Se o filho de Deus nascesse hoje, na sua genealogia estariam os nomes de Maria da PenhaTainara Souza Santos e Evelyn de Souza Saraiva, a primeira ficou paraplégica, a segunda teve as pernas amputadas após ser arrastada debaixo do carro por seu agressor, e a terceira foi alvejada pelo ex-namorado com duas armas de fogo.

Se Jesus nascesse hoje, a estrebaria seria algum barraco na periferia. A família sagrada dividiria espaço com os mais de 3 milhões de brasileiros que vivem em lugares onde não se chega de carro, caminhão ou ônibus, de acordo com o Censo 2022 do IBGE.

Se Jesus nascesse hoje, os primeiros a verem o rosto do menino Deus seriam os motoboys. Assim como os pastores que cuidavam de rebanhos no século 1º, os motoboys rodam dia e noite, arriscam a vida e ganham quase nada.

Se Jesus nascesse hoje, o infanticídio seria lembrado tanto nos nomes das crianças que perdem a vida atingidas por tiros de traficantes e policiais no Rio de Janeiro quanto nas faces das crianças e adolescentes traumatizadas pelo abuso sexual, crime pela lei, mas culturalmente tolerado.

O monge Angelus Silesius ensinou: “Jesus pode nascer mil vezes em Belém, mas o Natal só acontece quando ele nasce no coração humano”. Não me agrada o vernáculo, mas se ajuda a entender, escrevo: o nascimento de Jesus não é “sobre” um lugar no passado, mas “sobre” o valor da vida e o respeito pela sua sacralidade.

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