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Condenação com gosto de vingança

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Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Por um instante, quem sobreviveu a Bolsonaro terá direito a dançar sobre seus escombros

A Justiça não pode ser revanchista, mas os eleitores podem. Quando Jair Bolsonaro for condenado —e ele será—, metade do país terá motivos para abrir o champanhe.

Cada brasileiro contrário ao seu projeto autoritário guarda uma mágoa particular na gaveta: o parente perdido na pandemia; o amigo tragado pela lavagem cerebral do WhatsApp; a paciência esgotada com o ambiente digital transformado em pardieiro pelas milícias virtuais; a Polícia Federal usada como empresa familiar para blindar filhos enrolados; a associação absurda da vacina da Covid ao HIV; a fraude no cartão de vacina; a Abin “paralela” para perseguir desafetos; as joias sauditas contrabandeadas. A lista é longa, e cada item é um bom motivo para brindar.

STF vai decretar a sentença, mas a catarse nacional será nossa. Popular. Barulhenta. Escrachada. Eu, por exemplo, pensei em organizar um ritual cívico: plantar uma árvore para cada mentira contada em rede nacional. Vai faltar espaço. Também cogito acender uma vela, dessas de sete dias, para agradecer por termos sobrevivido. Não era só a democracia que estava em jogo, mas também nossa sanidade.

Talvez uma festinha com playlist de ataque: Chico, Caetano, Anitta, Pabllo Vittar. A cada música, um brinde aos artistas tratados como inimigos da pátria. A arte foi demonizada, a cultura reduzida a palavrão, o intelectual transformado em xingamento, a crítica rebaixada a conspiração —enquanto a cafonice era alçada a símbolo nacional. Pois bem: na minha festa, a vingança será estética. Quanto mais ele odiava, mais alto o volume.

Revanchismo? Não, senhores. É só justiça emocional. Um exorcismo tardio, um ajuste de contas simbólico. Bolsonaro não vai pagar por tudo o que fez. Não vai responder pelas vidas que poderiam ter sido salvas, pela corrosão das instituições, pela misoginia vomitada contra jornalistas mulheres, pela transformação da mentira em política oficial.

Mas, pelo menos, por um instante, quem sobreviveu a ele terá direito a dançar sobre os seus escombros.

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