
Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
A privacidade, em breve, será uma saudade
“Get a room” significa “arranje um quarto”. É também o empurrãozinho linguístico para quem resolve trocar amassos e gemidos em público. Foi o que pensei quando eu e o mundo vimos a pulada de cerca do CEO da Astronomer e da diretora de RH da empresa, flagrados abraçadinhos pela “câmera do beijo” durante um show do Coldplay. Mas não é tão simples. É possível que privacidade e intimidade, da forma que conhecemos, possam ter chegado ao fim.
Teve quem culpou a banda pela exposição. O vocalista do Oasis provocou e disse que eles não tinham aquelas “câmeras traíras”. “Não é da nossa conta”, disse Liam Gallagher. Não é mesmo, além da dos chifrudos e dos familiares. O que não exclui o fato de que a vida anda cada vez menos privada, ainda mais em público. O caso da Astronomer não é isolado, mas símbolo de uma cultura de vigilância extrema e, outro fenômeno reeditado, de punição pública.
Hoje somos personagens de um reality show sem script, vigiados por câmeras públicas e privadas que capturam nossos passos, rostos, gestos e olhares. Drones sobrevoam avenidas e festas, câmeras corporativas gravam a expressão de cada colaborador e apps de transporte registram cada trajeto. Nossas escolhas de moda, de lazer e de comida alimentam os algoritmos comerciais.
Este “novo normal” esconde um paradoxo: encontramos segurança na exposição ininterrupta. Portanto, “get a room” não é mais suficiente para preservar a intimidade. A casa, antes refúgio, foi invadida por “alexas”, que anotam cada suspiro, e por câmeras que prometem proteger, mas expõem.
Trocamos o pudor e a intimidade pela praticidade de um clique. Somos rastreáveis só de manter o celular ligado. A privacidade em breve será uma saudade. Já arcamos com as consequências: vazamentos, supervisão corporativa e governamental, controle afetivo —alguém acha normal casais que se monitoram por apps?
Não tem como gerir a tecnologia que nos cerca, mas, assim como ter um amante, é decisão de foro íntimo compartilhar muitos dos aspectos de nossa vida. Claro, desde que não seja no show de uma banda famosa.