
Do ESTADÃO
Por ROBERTO DAMATTA
O que tenho visto neste vergonhoso evento corta o coração de um velhos como eu e envenena o dos jovens e de quem pensava a história como progressiva, mas verifica que, no Brasil, ela marcha pra trás
Não estamos testemunhando um processo destinado a esclarecer um crime comum, urdido e cometido por marginais, estamos atônitos assistindo ao supremo magistrado da nação ser acusado de tramar contra o regime democrático que ele jurou preservar e, numa lambuja cruel, dos seus auxiliares mais próximos e poderosos como o chefe de gabinete, ministros e, pasmem, dos comandantes das Forças Armadas e de órgãos de inteligência.
O que dizer numa crônica desse espetáculo vergonhoso, negado pelo negacionismo ideológico dos asseclas e mal-educados apoiadores?
É a elite governamental envolvida num inexequível golpe de Estado “dentro das quatro linhas”, um projeto somente cabível na cabeça de quem transcende os limites da racionalidade e acha possível acender velas a Deus e ao Diabo. Algo, aliás, típico do nosso adoentado sistema político.
Acresce a tudo isso um relator que muitos pintam como promotor, mas que, nos seus interrogatórios, arrola documentos, declarações e reuniões reveladoras de índoles e anseios antidemocráticos dos golpistas gorados e confirmados nas desculpas evasivas dos interrogados.
As inquirições podem desagradar aos golpistas, mas não se pode negar o seu nível de competência, num contraste fulminante com as pífias performances dos acusados e com a pusilanimidade do seu herói.
O que tenho visto nesse vergonhoso evento, que infelizmente não é o único de nossa história, corta o coração de um velho como eu, e envenena o dos jovens e de quem pensava a história como progressiva, mas verifica que, no Brasil, ela marcha pra trás.
Por causa da nossa estadomania, estadofilia e estadopatia “fomos” tudo: reino, monarquia, república velha e nova, ditadura e duríssimo regime militar. Só nos falta legalizar o ladravaz salvacionismo populista. São múltiplas as motivações da trama golpista. Polarização, anistias, urna eletrônica como instrumento de roubo eleitoral, populismo salvacionista, nacionalismo estatizante contra iliberalismo.
Mas o que tenho testemunhado é o avacalhamento das responsabilidades coladas nos cargos públicos por ocupantes que não honram seus encargos seja por malandragem ou por motivos políticos. O poder à brasileira matou a dialética entre cargos e encargos e assim escalamos canastrões para cargos públicos cruciais, pondo em risco a democracia e a própria confiança no País. Sem o enlace entre pessoa e papel, cargos públicos como o de presidente correm o risco de serem ocupados por canastrões e perdem a sua legitimidade como instrumentos de transformação coletiva.
O que dizer, pois, desses rituais nos quais valentes viram pusilânimes a não ser reafirmar que o mundo vive uma incoerência destrutiva. E prova cabal disso é o indefensável, contraditório e inexecutável golpe “dentro das quatro linhas”.