
Da FOLHA
Por ANDREA WOLFFENBÜTTEL
Enquanto ONGs enfrentam falta de recursos, campanha para quitar dívida do clube arrecadou R$ 25 milhões em uma semana
Há algum tempo, trabalho com promoção da filantropia e da cultura de doação, e a vaquinha online criada pela Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians, tem provocado muitas discussões ao meu redor.
A campanha que pede doações para quitar a dívida contraída pelo clube na construção de seu estádio, a Neo Química Arena, foi lançada no dia 27 de novembro, e conseguiu arrecadar R$ 25 milhões na primeira semana.
Entre gestores de organizações sem fins lucrativos, que dependem de doações para realizar seu trabalho, paira certa surpresa.
O principal motivo é que a razão mais comum apresentada pelas pessoas para não doarem, depois da falta de dinheiro, é desconfiança em relação à honestidade e à transparência das organizações sociais.
Não é preciso ser nenhum profundo conhecedor dos meandros dos esportes para saber das várias denúncias de má gestão dos recursos contra o Corinthians e, sejamos justos, contra quase todos os grandes times de futebol do país.
Outra fonte de indignação é a “causa”: é difícil aceitar que as pessoas doam para pagar um estádio, mas não se mobilizam para salvar vidas. Ao navegar em qualquer site de campanhas de arrecadação online, encontram-se dezenas de pedidos para cirurgias, exames e tratamentos que não atingem a casa dos R$ 2.000, que dirá dos milhões.
Por último, chama a atenção o poder financeiro do beneficiário das doações. Trata-se do Sport Clube Corinthians Paulista, que, em julho deste ano, anunciou novo contrato de patrocínio no valor de R$ 309 milhões até 2026 e cujos “funcionários da bola” têm salários de milhões de reais.
Percebe-se que as motivações que levam corintianos a depositar milhões na vaquinha do clube não obedecem à lógica aplicada na hora de fazer doações para organizações sem fins lucrativos.
É por isso que a mais antiga e tradicional pesquisa que avalia o comportamento do doador brasileiro, a Pesquisa Doação Brasil, elaborada pelo Idis (Instituto pelo Desenvolvimento do Investimento Social), não leva em consideração doações para igrejas, clubes, amigos ou familiares.
Esse tipo de doação não é impulsionado pelo desejo de transformar a realidade social, mas pela vontade de apoiar uma instituição da qual o doador se considera integrante, seja uma igreja, seja um time ou até mesmo a própria família.
Assim como o frequentador de uma igreja quer que ela permaneça ativa porque isso lhe faz bem, o corintiano quer que o Corinthians continue existindo para que ele possa ir ao estádio acompanhar os jogos, vibrar nas vitórias, sofrer nas derrotas e, acima de tudo, sentir-se fazendo parte de uma imensa comunidade.
O sucesso da vaquinha do Corinthians diz muito mais sobre o profundo senso de pertencimento que une seus torcedores do que sobre a cultura de doação do brasileiro. Tomara que o Brasil, um dia, tenha uma torcida tão apaixonada pelo país quanto a do Corinthians, capaz de se mobilizar tão generosamente para solucionar seus problemas.