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A ameaça de golpe foi debelada?

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Da FOLHA

Por JAMES N. GREEN e PAULO ABRÃO

O roteiro da intentona de 2022 seguia muito da cartilha de 1964; o Brasil continuará sem discutir ampla reforma democrática das Forças Armadas?

Apesar do golpe de 1964 e da ditadura militar que se seguiu por 21 anos no Brasil terem sido repletos de crimes contra a humanidade, ninguém nunca foi punido. A lei de autoanistia adotada em 1979 impede até hoje a responsabilização dos envolvidos.

A despeito de toda a mobilização da sociedade civil nos anos 1970 e 1980 para exigir que os militares retornassem aos seus quartéis e ficassem fora da política, a Lei de Anistia blindou os crimes de perseguição política, censura, tortura, execuções sumárias e desaparecimentos ocorridos no período. A redemocratização não veio acompanhada por nenhuma reforma estrutural que eliminasse a cultura autoritária instalada dentro das Forças Armadas. Prova disso é o fato de que ainda hoje existam unidades militares cujos nomes enaltecem o golpe, a ditadura e seus protagonistas.

Essa exaltação atingiu o que talvez tenha sido seu ponto máximo e mais absurdo em 2016, quando Jair Bolsonaro, ainda um deputado, dedicou seu voto em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff a Carlos Brilhante Ustra, coronel do Exército que havia comandado, entre 1969 e 1973, um centro de tortura da ditadura militar.

Mesmo incorrendo nessa exaltação absurda dos crimes da ditadura, feita a plenos pulmões no plenário da Câmara, Bolsonaro foi eleito presidente da República em 2018. E, quando tentou a reeleição, em 2022, agiu exatamente como os golpistas do passado: articulando militares de alta patente para destruir a democracia e matar e prender seus opositores, conforme revelado agora pela Polícia Federal.

É inacreditável que generais e coronéis tenham tentado repetir a história agora, agregando elementos ainda mais trágicos à trama, que incluía o assassinato de Luiz Inácio Lula da Silva —antes que ele tomasse posse—, além do vice, Geraldo Alckmin, e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

roteiro do golpe de 2022 seguia muito da cartilha de 1964, mas seu desfecho, felizmente, foi diferente. E embora a investigação da Polícia Federal revele aspectos desconhecidos, a trama golpista em si já era um fato conhecido.

Tanto é assim que, em julho de 2022, o WBO (Washington Brazil Office) —uma ONG apartidária e independente que monitora movimentos políticos extremistas, defende a democracia e apoia a articulação dos movimentos sociais no exterior— organizou a visita de 20 representantes de organizações da sociedade civil a Washington (EUA) para alertar o Congresso, representantes do Departamento de Estado e membros da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre o risco iminente de um golpe.

Em 1964, os EUA deram apoio decisivo para derrubar João Goulart. Mas, em 2022, os tempos eram outros, e o governo americano enviou recados claros de que desta vez não apoiaria nenhum tipo de aventura.

Durante os encontros mantidos pela comitiva, notamos que a lembrança da invasão ao Capitólio por parte de extremistas que queriam anular as eleições dos Estados Unidos era ainda muito recente para os políticos em Washington, o que favoreceu que o Senado americano apresentasse uma recomendação para que o governo dos EUA rompesse a cooperação militar com o Brasil caso houvesse uma ruptura democrática.

Agora, diante da descoberta da trama golpista que em 2022 tentou emular o exemplo de 1964, haverá uma nova anistia? O Brasil seguirá sem discutir uma ampla reforma democrática em suas Forças Armadas?

E os EUA sob a Presidência de Donald Trump, um presidente que ameaça usar o exército americano para deportar milhões de trabalhadores indocumentados, incluindo milhares de brasileiros? Que atitudes ele tomará em relação às ameaças à democracia no Brasil, caso seja instado a isso? O que esperar de um presidente americano que promete usar o aparato de Estado para perseguir seus adversários políticos internos?

Não há dúvidas de que a democracia está seriamente ameaçada —não apenas no Brasil, mas também nos EUA e em outras partes do mundo. As forças democráticas precisam se unir e reagir para que o passado não se repita. É preciso dizer em uníssono e com força: “Nunca mais!”.

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