
De O GLOBO
Por MÍRIAM LEITÃO
Depoimento do brigadeiro Batista Jr mostra que supostos “exageros de Alexandre Moraes” passaram a ser o caminho imaginado por Bolsonaro para o golpe, depois de ficar clara a lisura das eleições
Em seu depoimento à Polícia Federal, o brigadeiro Batista Jr disse que ele , o ex-comandante do Exército Freire Gomes, Bruno Bianco (da AGU), o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, e o Almirante Garnier, em 1º de novembro de 2022, “expuseram ao então presidente da República, Jair Bolsonaro, que não tinha ocorrido fraudes nas eleições”. Ou seja, até quem participou da tentativa de golpe, caso de Garnier e Paulo Sérgio, sabiam que era um pretexto a conversa de fraude.
O que fica claro do depoimento de Batista Jr é que a decretação do decreto de Garantia da Lei e da Ordem para resolver uma suposta “crise institucional”, contra supostos ” exageros de Alexandre Moraes” passou a ser o caminho imaginado por Bolsonaro para o golpe, depois de ficar claro que não houve qualquer fraude nas eleições.
Batista Jr. diz “que em uma das reuniões dos Comandantes das Forças com o então presidente da República, após o segundo turno das eleições, depois de o presidente Jair Bolsonaro aventar a hipótese de atentar contra o regime democrático, por meio de algum instituto previsto na Constituição (GLO, Estado de Defesa ou Estado de Sítio), o então comandante do Exército, general Freire Gomes afirmou que caso tentasse tal ato teria que prender o presidente da República”.
Essa informação de que o comanda do Exército disse que teria que prender o presidente em caso de atentado contra a democracia é muito importante.
Outro ponto importante do depoimento do brigadeiro é o que relato sobre o dia 14 de dezembro de 2022, quando ele conta o então ministro da Defesa, Paulo Sérigio, chamou os comandante e disse que tinha uma minuta para mostrar a ele. Batista jr perguntou: “Esse documento prevê a não assunção do cargo pelo novo presidente eleito? Paulo Sérgio ficou calado”, conta o ex-comandante da Aeronáutica.
Em outro trecho do depoimento, o brigadeiro conta ainda que “as pressões para anuir a uma possível ruptura institucional não se limitou às redes sociais”. Ele diz que no dia 8 de dezembro de 2022, após a formatura dos aspirantes à oficial da FAB, na cidade de Pirassununga/SP, foi interpelado pela deputada federal Carla Zambelli, com a seguinte indagação: “Brigadeiro, o senhor não pode deixar o Presidente Bolsonaro na mão”, ao que teria respondido: “‘Deputada, entendi o que a senhora está falando e não admito que a senhora proponha qualquer ilegalidade”. Batista Jr conta que reportou o fato ao então ministro da Defesa, Paulo Sérgio de Oliveira, “o ministro reportou ao depoente, que foi abordado pela deputada federal CARLA ZAMBELLI de forma semelhante”.
O brigadeiro relata ainda à Polícia Federal que o general Heleno esta no ITA, participando da formatura de um neto, quando Bolsonaro o chamou de volta a Brasília para uma reunião de urgência no fim de semana. Ele pediu carona no avião do brigadeiro Batista Jr. No depoimento, o ex-comandante da Aeronáutica conta que o chamou numa sala e o avisou que a FAB não participaria de “nenhum movimento de ruptura democrática”. Nesse momento, diz o brigadeiro, “o general ficou atônito”. Voltaram a Brasília, o brigadeiro pilotando o avião, e não se tocou mais no assunto.
O brigadeiro afirma ainda que o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, atuava como um consultor jurídico do golpe. “Anderson Torres procurava pontuar aspectos jurídicos que dariam suporte às medidas de exceção (GLO e Estado de Defesa), o papel do ministro Anderson Torrers na referida reunião foi assessorar o então presidente Jair Bolsonaro em relação às medidas jurídicas que o Poder Executivo poderia adotar no cenário discutido”, diz um trecho do depoimento.