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O primeiro golpe de Bolsonaro

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Do OMBUDSMAN DA FOLHA

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

No 7/9, mídia cede muito espaço para o candidato que finge ser presidente

Quarta-feira, 7 de setembro. O presidente Jair Bolsonaro deu um golpe, mas não aquele que todo mundo temia. Do início da manhã à noite, seu nome, sua imagem, seus argumentos e preconceitos e até sua capacidade sexual dominaram as redes sociais e as conversas no país. Foi a maior exposição que conseguiu em muito tempo, em pleno período eleitoral, ao arrepio da legislação e do equilíbrio exigido da mídia profissional. Algum veículo está preparado para compensar os rivais com 12 horas de atenção?

Na GloboNews, Fernando Gabeira não se conteve e fez uma autocrítica que serve a toda a categoria: “Cobrir exaustivamente a fala de Bolsonaro como candidato só é razoável se nós cobrirmos exaustivamente também a fala dos outros. Porque quem falou foi o candidato. Ele falou algumas barbaridades exatamente para nós comentarmos”. A receita é conhecida, Bolsonaro choca para manter microfones e câmeras nele. Seus anos de baixo clero e os últimos como presidente não foram suficientes para a imprensa aprender como escapar dessa arapuca. Eliane Cantanhêde em O Estado de S.Paulo e Reinaldo Azevedo na Folha, entre outros, ressaltaram a relativa facilidade com que a mídia se deixou sequestrar nesta última semana. Leitores, em mensagens ao ombudsman, foram além, questionando até se não havia uma espécie de síndrome de Estocolmo em curso.

Não é um problema novo nem uma jaboticaba. Donald Trump é modelo acabado para autocratas no mundo inteiro. A última capa da revista The Economist, com a sombra de Bolsonaro delineada como se fosse o americano, ilustra bem o fato. Não há solução à vista, o jornalismo navega em águas desconhecidas. O que existe, por enquanto, é mitigação: checar fatos, expor mentiras e dizer tudo de novo, por mais cansativo que pareça. E não baixar a guarda, é óbvio.

Se restou generalizada a falta por não apresentar alternativas à cobertura incondicional do candidato que finge ser presidente, a Folha cometeu alguns pecados particulares. O principal foi demonstrar certa soberba ao não evidenciar o ataque explícito às pesquisas eleitorais. Bolsonaro trocou as urnas eletrônicas pelos institutos de pesquisa. O único nome relacionado à mídia nos discursos de Brasília e do Rio foi o do Datafolha. No início da noite, a manchete do UOL era precisa: “Bolsonaro sequestra bicentenário, pede votos e ataca Lula e pesquisas”. O golpismo não se escondeu, apenas mudou de instância.

Contrapor levantamentos sérios com a lenda do “datapovo” é preparar terreno para contestação do resultado. Começa em forma de piada, tática comum da extrema direita, como Carlos Bolsonaro dizer no Twitter que o instituto só vê girassóis na foto da Esplanada cheia de gente. Termina em confusão. O que estaria acontecendo agora se o Datafolha não tivesse aferido que o presidente oscilou dois pontos na pesquisa de sexta-feira (9)? O que acontecerá se o Ipec, na segunda-feira (12), mostrar que era fogo de palha? O que será do país se na boca do primeiro turno pesquisas indicarem que o voto útil liquida a fatura?

Como escreveu The Economist em editorial, Bolsonaro, por princípio, não é um defensor da democracia. O presidente finge ser candidato. Partir dessa premissa ajudaria a driblar as armadilhas.

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