
A diferença de importância dos personagens, obviamente, é abissal, mas ontem revivi a emoção pela qual passei, em duas oportunidades, ao assistir a saída do ex-presidente Lula da prisão, assim como no meu caso, também indevida.
Tentei imaginar o que passava na cabeça daquele homem que, cercado pelos seus, após mais de um ano e meio injustiçado, irradiava esperança, alívio e felicidade.
A primeira sensação é indescritível.
Demora um tempo para cair a ficha e, gradativamente, rotinas que o ajudaram a sobreviver nos dias difíceis serão substituídas pelos hábitos da liberdade.
É indiscutível que Lula realizou, bem antes disso, um Governo que aproximou os pobres de direitos antes inacessíveis à grande parte da população, razão de sua enorme popularidade.
No mundo, poucos governaram assim.
Lula também cometeu erros, graves, que permitiram os desvios de conduta conhecidos de todos, principalmente nos episódios apelidados ‘mensalão’ e ‘petrolão’.
Se sabia de tudo ou foi induzido aos equívocos, é a grande questão a ser respondida.
O ex-presidente nega ter participado de qualquer ilícito e seu patrimônio conhecido é absolutamente compatível com os rendimentos apresentados.
Cabe aos órgãos de investigação comprovarem, inequivocamente, que o ex-presidente cometeu os crimes que lhe são imputados.
Até o presente momento, não conseguiram.
Nesse contexto, ampliado pelas revelações do ‘The Intercept’, escancarando a manipulação de procedimentos entre promotores e o juiz Sérgio Moro, se tem claro que o processo todo está contaminado.
As evidências apresentadas pela ‘Lava-Jato’ para incriminar Lula são, por diversas razões, passíveis de contestação.
Falamos aqui do que existe faticamente, não dos irreais boatos que surgiram ao longo do tempo, tratados como verdade absoluta no imaginário popular.
Lula não é santo.
Muitos de seus pecados políticos foram duramente criticados pelo Blog do Paulinho, mas existiram, também por aqui, assim como em diversos setores da imprensa, erros de avaliação e, também, desrespeito ao cidadão.
Nada, em nosso caso, motivado pela política ou por maldade, mas induzido pelo equivocada percepção de que a operação ‘lava-jato’ era composta por gente séria, o que, por consequência, avalizaria como verdade todo o trabalho por ela apresentado.
Descompromissado com o erro, fosse nos dias atuais, nesse novo contexto, iluminado pelo trabalho espetacular de Glenn Greenwald e pelos fatos revelados a posteriori, o Blog do Paulinho, ainda assim, manteria diversas críticas ao comportamento do ex-presidente, mas jamais teria escrito outras, das quais se arrepende profundamente.
Erramos ao tratar Lula, em determinados casos, com adjetivos injustos, em meio a analises equivocadas.
Ainda bem, houve tempo para a devida correção de rumo.
‘Lula Livre”, mais do que um desejo popular, trata-se da justiça sobrepondo-se ao populismo e às manipulações sórdidas de bastidores, que deve ser seguido pela continuidade do devido processo legal, ambiente no qual o ex-presidente terá a oportunidade de comprovar sua inocência ou, se for o caso, revelada sua culpabilidade.
Tudo isso, é claro, sob o rigor da Lei, não pelo clamor do whatsapp, alicerçada em ‘fake-news’ de gente que, nas duas últimas eleições, votou em Aécio Neves e na família miliciana a pretexto do combate à corrupção.