Por HUGO SERELO
Emocionante exemplo de torcedor
Hélio é pai, marido, divinopolitano e cruzeirense. Aos 54 anos, ele não sabe precisar quando perdeu a visão. A doença foi gradativa e aos poucos as vistas se escureceram. Sua bela família sempre lhe deu todo o suporte e amor, mas o Seu Hélio tem outro amigo fiel. O rádio.
Segue tudo pelas ondas do AM. Acompanha especialmente a Raposa, clube do coração. Vai desde o pré-jogo até as considerações finais.
Foi com simpatia e simplicidade que ele e sua família receberam a equipe do Cidade Divinópolis.
Dono de uma memória incrível, Hélio sabe de cabeça as escalações de times do Cruzeiro em muitas décadas. A escalação que ele primeiro menciona é Raul, Nelinho, Morais, Darcy e Vandeley; Piazza, Zé Carlos e Jairzinho; Roberto Batata, Palhinha e Joãozinho. É o time da Libertadores 76, que marcou sua juventude. Uma enciclopédia viva.
A Emoção
Foi pelo rádio que Hélio viveu sua maior emoção no futebol. No ano de 2003, o Cruzeiro foi Campeão Brasileiro. As lágrimas surgem aos olhos quando menciona a conquista:
“Meu pai, Orlando, era um cruzeirense doente, do tipo que rezava pra Nossa Senhora nos momentos difíceis do time. Eu sou cruzeirense por causa dele. Ele queria acompanhar o Cruzeiro campeão brasileiro, mas faleceu antes dessa alegria. Em 2003, eu me lembrei do meu pai naquele momento e contra o Paysandu eu chorei, mas não pelo Cruzeiro. Chorei pelo meu pai.”
Torcedor fiel, acompanha o time até nos momentos mais difíceis. Há uma lembrança que ele faz questão de enaltecer:
“O 4 de dezembro de 2011 é um dia que nunca vou esquecer. O dia do 6×1. Eu estava tão ansioso pelo jogo que coloquei uma garrafa de pinga e outra de chá na mesa e disse que a garrafa que eu fosse beber dependeria do resultado do jogo. Só consegui me tranquilizar após o quarto gol, com Fabrício.” Diz Seu Hélio, que após o jogo degustou a garrafa de cachaça, claro.
Rádio Antigo x Rádio Moderno
Hélio nota pequenas diferenças no formato do rádio ao longo dos anos: “Acho que antigamente os repórteres tinham mais liberdade. As perguntas eram mais francas e as respostas também. Hoje existem muitas amarras e os jogadores são assessorados demais.”
Mineiro 77
O Mineiro 77 foi um dos mais emocionantes. Ele se lembra com carinho e faz questão de contar.
“Uma alegria enorme. O Atlético tinha um bom time e por ter vencido o primeiro jogo a confiança deles era forte, mas o Cruzeiro trouxe o atacante Revétria que fez três gols no segundo jogo e outro no terceiro. O Cruzeiro ainda marcou com Lívio e foi campeão de forma heroica. As ruas de Divinópolis foram tomadas numa festa absurda.”
Divinopolitano
Nascido e criado em Divinópolis, sempre perto da Praça da Catedral. Vive a vida inteira na mesma casa e foi lá que constituiu uma linda família.
Hélio nos ensina o valor de ser verdadeiramente torcedor. Sua memória é de quem sabe o peso da camisa estrelada e a dimensão da história do clube.
Mais do que isso, Seu Hélio nos dá aulas de vida e cidadania. São exemplos assim que devemos apreciar.
